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VOCÊ É "CRIA" DE JACAREPAGUÁ?

  • Foto do escritor: Ana Melo
    Ana Melo
  • 29 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

A violência e insegurança têm tomado conta de Jacarepaguá e, muitas vezes ao andar pelas ruas, ficamos nervosos e apreensivos. Mas, no final de novembro, nas ruas da Curicica, algo estava diferente! A loja de açaí estava cheia de adolescentes com roupas coloridas, animados com a apresentação de dança afro que aconteceria no Núcleo de Artes da escola municipal Silveira Sampaio, todos com seus rostos cheios de cores e de sorrisos.


O Núcleo de Arte pertence à Prefeitura do Rio de Janeiro, 7ª coordenadoria sendo elemento integrante da Gerência de Projetos Pedagógicos Extracurriculares (GPPE). Localizado na rua José Perrota nº 31, dentro da Escola Municipal Silveira Sampaio, em Curicica, o local recebe alunos de toda rede municipal do Rio de Janeiro, os quais podem se matricular independentemente de qual unidade escolar vieram.


Neste local, crianças e adolescentes têm acesso a aulas de ballet, afro, jazz, sapateado, violão, violino, teclado, bateria, canto e coral, teatro, atletismo, futsal, jiu-jitsu e voleibol, desenvolvendo suas habilidades e participando de apresentações e campeonatos que ampliam suas visões de mundo. Deste mesmo ambiente, saíram atletas que disputaram e venceram campeonatos diversos e participaram com sucesso das Olimpíadas, assim como músicos que se consagraram em carreiras solo ou como acompanhantes de artistas renomados no cenário nacional.


Nesse ano de 2025, o Núcleo de Arte desenvolveu o projeto artístico denominado “Sou Cria”, onde os alunos puderam se expressar das mais variadas formas sobre o local onde vivem. Foi um sucesso de pertencimento ao território, de beleza, de identidade da “favela” e, consequentemente, da cultura carioca. Ter orgulho do lugar onde somos criados, do ambiente que nos é familiar, é honrar os que vieram antes de nós. O conceito de comunidade é utilizado para definir pessoas que vivem num território comum, e sabemos que o termo “favela” vem sendo considerado pejorativo, pois é visto como um lugar de falta, de escassez.



Entretanto, o projeto “Sou Cria” demonstrou que a solidariedade no cotidiano, a alegria como forma de resistência e a busca por direitos e por dignidade estão presentes nessa cultura que é tão própria à favela. Assim, poder observar os alunos e a comunidade encantados com fotos, maquetes, pinturas e as apresentações de dança e teatro foi simplesmente algo lindo de se ver. Emociona ver um pai relembrando e dançando um funk antigo, a foto tirada pelo adolescente registrando a marquinha de biquini feita na laje.


Tradição solidária na comunidade, vimos também a troca de serviços de beleza entre as pessoas, cada qual oferecendo sua especialidade, o que possibilitou o acesso aos cabelos descoloridos no estilo “nevou”, os cortes de cabelo trabalhados e diferentes, as tranças africanas e os designers de unha. Outras manifestações estavam presentes na feitura da pipa, na marimba (termo que faz parte apenas do “dialeto carioquês”, não possuindo o mesmo significado em outros estados brasileiros), na tia da esquina que vende sacolé...


Todos esses movimentos são expressões naturais e culturais de um povo que resiste e insiste em viver de um jeito próprio, do seu jeito. Na favela, o vizinho não nega um pouco de açúcar e as crias são olhadas por todos, sem distinção (não é considerado fofoca isso). Como o termo comunidade nos faz pensar, a solidariedade é algo comum e necessário.


As fotografias produzidas pelos próprios alunos mostraram a alegria estampada nos rostos de quem insiste em ser feliz e, de forma poética, uma natureza diferente em Curicica, com suas montanhas exuberantes, cobertas por trechos de Mata Atlântica ainda vicejantes, com uma variedade incrível de flora natural da região. Uma parte da exposição fotográfica chamou bastante a atenção: a favela tem fome de quê? A resposta veio escrita em panelas, educação, cultura, arte pintada, arte em movimento, arte de todas as formas...


Parafraseando os funkeiros Cidinho e Doca: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que aqui é o meu lugar”. Homenageando personagens negros que são oriundos de comunidades como Machado de Assis, Elza Soares, Carolina Maria de Jesus e Emicida, o projeto dá mais um exemplo que o conhecimento transforma.


Longe de romantizar a pobreza ou toda violência que essas comunidades sofrem, é importante destacar um local como o Núcleo de Arte, que não somente valoriza a cultura da favela, como também oportuniza a essas crianças e adolescentes terem outras vivências, a descobrirem e desenvolverem suas potencialidades, a cultivar a autoestima de um povo que precisa viver e não somente sobreviver.


A culminância do projeto, como acontece todo ano, reuniu famílias, amigos e alunos para assistir as apresentações e ter orgulho da nossa juventude, que necessita de um olhar mais cuidadoso e isso é um dever de todos nós enquanto sociedade. O preconceito e a violência, seja explícita ou velada, delega a esses jovens um lugar da invisibilidade e do não ser. Mas eles são pura possibilidade, podem “fazer batalha de passinhos” e tocar violino, fazer balé e jiu-jitsu ao mesmo tempo.


Lutar por mais pontos de cultura se torna primordial para termos uma sociedade justa e consciente. A arte é um direito fundamental, e a beleza está em todo lugar.



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