JACAREPAGUÁ, OS POBRES E O GLOBO
- Leonardo Soares dos Santos

- há 2 dias
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As chuvas do início de 1966 castigaram enormemente a cidade do Rio de Janeiro. Milhares de pessoas ficaram desabrigadas. Falou-se na época em 50 mil. Cerca de 250 morreram. Um caos absoluto. E os mais atingidos foram os moradores de morros localizados na zona sul. Tudo levava a crer que a tragédia então verificada poderia servir de ensejo para a realização de obras estruturais na cidade, que debelassem alguns dos seus problemas, oriundos da singularidade do seu relevo, constituído por vários morros.
Expectativa de melhoria também abalizada pela presença no comando do executivo estadual da figura de Negrão de Lima, que fazia oposição a Carlos Lacerda, seu antecessor, que pôs em prática uma agressiva campanha de despejos em massa contra moradores de favelas. Contudo, a realidade se mostrou mais dura – para os pobres.
O Negrão de Lima governador se mostrou bem diferente do Negrão de Lima candidato. E o que é pior – o petebista Negrão tratou de continuar com a política de despejos do udenista, sem ceder em nada. E foi o que ele pretendeu fazer com as fortes chuvas ocorridas naquele ano. Ao invés de vê-la como um fator impulsionador de uma política mais humana com as populações periféricas, ele explora essas mesmas chuva para alavancar uma espécie de guerra às favelas. A destruição então provocada foi vista como uma oportunidade. E a imprensa teve a mesma percepção. E não fez a menor questão de dourar a pílula.
Em certos momentos, tinha-se a impressão que, em que pese as desgraças que as pessoas estavam sofrendo, havia muitos motivos para celebrar. A reportagem de O Globo de 15 de janeiro é emblemática dessa abordagem. As chuvas nem haviam passado, e o jornal que apoiou o Golpe Militar de 1964 correu para defender a proposta de se fazer da Cidade de Deus um local para servir de moradia definitiva dos “flagelados”.

As pessoas ainda choravam seus mortos, as suas perdas materiais, e o jornal se mostrava mais preocupado em aproveitar o flagelo para acabar de vez com as favelas que se espalhavam pela zona sul. Além do despropósito do enfoque, o mesmo jornal reconhecia que o bairro não tinha condições de receber tanta gente de uma vez e sem nenhum planejamento. Na verdade, a íntegra do texto se mostra mais impressionante pela frieza: “Apenas um problema existe: as redes de esgoto, energia e água ainda não estão concluídas.” De fato, não fazia sentido se discutir essa possibilidade. Nem a Cidade de Deus poderia abrigar os desalojados e nem era o momento mais propício para isso. Porém, em se tratando de pessoas humildes e periféricas, até o inaceitável poderia ser tolerado.
Seria também nessa conjuntura que Jacarepaguá passaria a assumir um lugar estratégico no esforço das elites da cidade em varrer as favelas da zona sul e da Barra da Tijuca. Jacarepaguá seria visto como um tipo de assentamento dos indesejáveis. E os anos 70 deixariam isso escancarado.


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