A JACAREPAGUÁ DO "FUTURO"
- Leonardo Soares dos Santos

- há 12 minutos
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Era o fim de 1970. E ainda aqui, curioso notar, a Barra da Tijuca e Jacarepaguá eram uma coisa só, um mesmo território. Na verdade, era a Barra que fazia parte de Jacarepaguá, não do bairro, mas da região administrativa. Esta englobava, além dos dois bairros citados, os de Muzema, Camorim, Vargem Pequena, Vargem Grande, Piabas, Recreio dos Bandeirantes, Marapendi e Guaratiba.
Em texto publicado sob o sugestivo título “Jacarepaguá: a cidade do futuro”, o Correio da Manhã (14/12/1970, p. 6) se dedicava a falar das iniciativas realizadas na região pelo seu administrador, o dr. Jayme da Silva Pozes. Em que pese o teor publicitário, o artigo deixa entrever os planos que o governo tinha para a região:
“Uma das metas principais da Administração foi abrir o máximo possível de estradas para receber o Jacarepaguá de amanhã, levando-se em consideração o plano Lúcio Costa, da Barra da Tijuca”.
Ou seja, fica evidente que a região de Jacarepaguá ainda é pensada em conjunto com a Barra da Tijuca. Esta passa a ser alvo de uma avalanche de obras de melhoramento e planos de ocupação minuciosamente voltados para setores da classe média alta da sociedade carioca. Várias intervenções urbanísticas também são pensadas para Jacarepaguá, conforme declara o administrador Pozes:
“Estamos aprontando as Vias 11, 5 e 9, que ligam a Estrada dos Bandeirantes ao centro de Jacarepaguá e à Barra da Tijuca. A Via 9 trará o pessoal que vem diretamente do autódromo. [...] Fica na Via 9 o Aeroporto de Jacarepaguá, quase concluído. Pedra da Panela em Jacarepaguá será, daqui a uns anos, o futuro centro administrativo da Guanabara...”.
Vários problemas são citados na matéria, como falta de policiamento, dificuldades de matrículas nas escolas, o trânsito que algumas vezes “fica estrangulado”. E o sr. Pozes até “lamenta não ter podido fazer mais na sua administração”. E ele acrescenta: “Realmente, não nos dedicamos muito ao asfaltamento de ruas, mas em compensação, construímos muitas vias de grande importância”.

Mas nada que abalasse a confiança no futuro da região. “Jacarepaguá vai ser a cidade do futuro: é preciso fazê-la crescer”. E uma das fontes desse crescimento seria o turismo. O cenário era mais do que propício para isso; Barra e no Recreio dos Bandeirantes possuíam 18 quilômetros de praia existentes. Havia, portanto, uma divisão de vocações entre as duas áreas: Jacarepaguá cuidaria da parte administrativa, e a Barra seria o lugar das belezas naturais para usufruto da classe média carioca.
Fica fácil imaginar o quanto brilhavam os olhos de cobiça dos agentes do capital imobiliário, diante de perspectiva tão promissora. Porém, uma questão começava a inquietar mais que outras. Havia senões no paraíso prometido. O cenário precisava de reparos. A matéria aponta, com certo incômodo, qual seria o principal deles: “O trabalho do Serviço Social é intenso devido as 10 favelas na Região”. A questão passava a ser o que fazer com elas. Os anos 1970 cuidariam de mostrar algumas respostas. E elas não seriam nada positivas para quem habitava a maior parte daquelas favelas.




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