JACAREPAGUÁ E AS FAVELAS
- Leonardo Soares dos Santos

- há 17 horas
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O Olhar do Correio da Manhã de 1971
Até o fim dos anos 1960 não havia ainda no imaginário popular uma distinção tão evidente entre o que era Jacarepaguá e Barra da Tijuca. Era tudo junto e misturado. Mas o plano-piloto de Lucio Costa para a região produziu um corte muito importante. Corte esse que estabeleceria uma verdadeira fronteira entre as duas áreas, não tanto geográfica e sim social. A Barra passaria a ser associada às classes médias de alto poder aquisitivo e Jacarepaguá ao segmento assalariado. Não que essa associação fosse puramente subjetiva, uma questão de imaginário. Em absoluto. Com o projeto de Lucio Costa, um volume enorme de investimentos seria canalizado para a Barra da Tijuca. Investimento por meio de obras em linhas viárias, serviços públicos (água, esgoto, luz) e prédios (comerciais e residenciais). Situação diferente da verificada em Jacarepaguá. Enquanto a Barra passaria a ser apontada como um exemplo de região do Rio onde tudo funcionava a contento, Jacarepaguá era o retrato da falta de estrutura. A reportagem do Correio da Manhã publicada bem no início dos anos 1970 (lembremos que o plano-piloto é de 1969) é emblemática:
“Morar em Jacarepaguá custa muito sacrifício. Além da distância – uma hora até o Centro – há apenas cinco linhas de ônibus a serviço de uma população, hoje, de 300 mil pessoas. [...] A água é pouca até no inverno. E, no verão, as torneiras secam. Para completar esse quadro, não há esgotos. A luz é deficiente e, à noite, é um perigo andar em Jacarepaguá. Não há vagas suficientes nas escolas secundárias e um grande número de estudantes é obrigado a frequentar escolas de outros bairros da Zona Norte. O policiamento é precário: o XII Batalhão Policial não dispõe de uma única viatura. Comércio, só de gêneros alimentícios. O resto tem que ser comprado em Madureira, no Méier ou no Centro da Cidade”.

Outro ponto em franca decadência era a produção agrícola:
“As águas poluídas dos rios estão acabando com as hortas e as lavouras. Além disso, são um risco permanente de epidemias. No ano passado, foram encontrados focos de esquistossomose nas hortas e lavouras do bairro”.
O jornal afirmava que as hortas estavam virando capinzais. Muito desse quadro desolador era visto como fruto de uma ocupação desordenada:
“Foi uma dessas explosões demográficas violentas e súbitas. Mais de 100 mil novos habitantes em menos de 5 anos”.
Ao contrário da Barra, Jacarepaguá passou a ser vista pelo governo como um espaço propício para a fixação de vários conjuntos residenciais, a maioria voltado para “grupos da classe média assalariada – economiários, bancários, funcionários públicos, militares e jornalistas”. Junto a esses conjuntos se expandiam
“grandes núcleos de ex-favelados da Zona Sul: a Cidade de Deus, com 38 mil habitantes, e os conjuntos gêmeos do Gabinal e das Margaridas, onde moram perto de 10 mil pessoas”.
E o mais grave, na visão do Correio da Manhã, era a multiplicação das favelas. Era o anúncio de grande campanha pela sua erradicação. E ela seria intensificada nos anos seguintes.





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