EXPANSÃO URBANA, ESPOLIAÇÃO DA TERRA E O DESTINO DOS LAVRADORES DO SERTÃO CARIOCA NA DÉCADA DE 1960
- Renato Dória
- há 2 dias
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Durante as décadas de 1950 e 1960 na Baixada de Jacarepaguá, estratégias de especulação e valorização fundiária eram colocadas em prática por agentes do mercado imobiliário. Estas estratégias esbaravam na força da resistência dos lavradores do Sertão Carioca frente a expansão de loteamentos imobiliários e emprestavam certa imprevisibilidade diante das transformações históricas ocorridas na região.
Por um lado, a agricultura do Sertão Carioca conseguia manter-se de pé e resistiu frente a expansão dos loteamentos imobiliários até os primeiros anos da década de 1960, por outro, o novo contexto político-administrativo iniciado com o primeiro governo da Guanabara atuou como uma força social impulsionadora da expansão urbana na região. Um exemplo disso foi a política de obras de infraestrutura urbana praticada pelos primeiros governos do Estado da Guanabara (1960-1974).
Paradoxalmente, foi durante o Estado da Guanabara, que havia garantido na sua legislação uma série de reivindicações dos lavradores e posseiros do Sertão Carioca, que se intensificou o processo de expansão urbana e de perda das características rurais da Baixada de Jacarepaguá. Nesta região, quanto mais se facilitava o seu acesso por meio da realização de obras de infraestrutura urbana, mais se intensificava sua ocupação e, também, a expansão urbana. Principalmente nos dois extremos desta vasta planície, na Barra da Tijuca e no Recreio dos Bandeirantes, regiões onde essa expansão urbana ocorreu tardiamente.
Até o final da década de 1950, as principais vias de penetração na Baixada de Jacarepaguá já estavam consolidadas: a estrada do Catonho, ligando à zona oeste (por Jardim Sulacap e Realengo); a avenida Cândido Benício, ligando à zona norte (por Madureira); as avenidas Menezes Côrtes, Édson Passos e a estrada de Furnas, ligando à zona norte (por Grajaú e pelo Alto da Boa Vista); a estrada do Joá, ligando à zona sul (por Barra da Tijuca e São Conrado).
Da mesma forma, as principais vias de comunicação interna da região já estavam parciais ou completamente pavimentadas: as estradas Vereador Alceo de Carvalho, dos Bandeirantes, da Barra da Tijuca, de Jacarepaguá, do Capão, do Itanhangá e a avenida Litorânea. A criação da Reserva Biológica de Jacarepaguá, no ano de 1959, foi um testemunho da expansão urbana sobre a região e buscava evitar uma ocupação desenfreada e predatória na planície oceânica de Jacarepaguá, como ocorrera nos bairros da zona sul.
Diante do impacto destas transformações urbanas operando na região, como as estratégias de especulação e valorização imobiliária que resultavam na expansão de loteamentos e as obras de infraestrutura, é importante perguntar qual teria sido o destino dos lavradores e posseiros do Sertão Carioca. Para onde foi essa população rural trabalhadora que estava sendo espoliada de suas terras pelo avanço dos loteamentos imobiliários e em nome de uma modernização urbana?
O historiador Hélio Viana em seu livro “Baixada de Jacarepaguá: sertão e zona sul”, descreveu três destinos possíveis. O primeiro, muitos lavradores e posseiros que ocupavam as disputadas terras da vasta planície oceânica e lagunar da Baixada de Jacarepaguá, “ao perderem seus quinhões” para grileiros e companhias imobiliárias, concentraram-se, no caso da Barra da Tijuca, em vilas de pescadores. Isto teria ocorrido no canal da Barra, nas lagoas da Tijuca e de Jacarepaguá ou para o interior da lagoa da Tijuca, junto aos morros do Pica-Pau e da Muzema.
Outro destino provável daqueles que mantinham pequenas posses agricultáveis na região do Recreio dos Bandeirantes foi rumar para Rio Bonito e Vargem Grande, próximo ao maciço da Pedra Branca, no interior da Baixada de Jacarepaguá. O terceiro destino provável dos pequenos posseiros e lavradores do antigo Sertão Carioca que transferiram mal suas posses ou que foram “despejados” ao longo dos conflitos das décadas anteriores foram as favelas da região ou os bairros proletários.
Enquanto isso, na década de 1960, cada vez mais diminuíam as terras destinadas a agricultura ocupadas por lavradores e pescadores no Sertão Carioca. Por outro lado, progrediam as obras de infraestrutura, a especulação com a terra e os loteamentos imobiliários. Esta era a forma de ação das empresas imobiliárias e dos pretensos proprietários que atuaram na região. Soma-se a isso o violento contexto político-institucional pós-1964, que ficou marcado pela desmobilização e diminuição da visibilidade das lutas dos posseiros lavradores e pescadores na região.






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