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DORMENTES DE TREM FORA DOS TRILHOS

  • Foto do escritor: Pablo das Oliveiras
    Pablo das Oliveiras
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

O caminhão da mudança encostou na entrada da vila e o desfile de móveis, traste e contraste passou lento e pesado até a casa, ao final da avenida. Por fim, a água fresca, uma recompensa oferecida pelos vizinhos. Minha obrigação de menino era explorar o quintal, um pedaço do terreno murado; do outro lado, a linha do trem, num rabicho fora de uso depois da estação terminal de Belford Roxo.


As poucas árvores do quintal eram senhoras agarradas ao barro vermelho, revolvido de dentro pra fora, pelas formigas graúdas, cortadeiras e de picada dolorida. Os vulcões e as formigas de fogo tornavam o quintal intransitável. Ao primeiro passo, pulando num pé só, sentia a potência das habitantes daquele território: “Muitas saúvas e pouca saúde, os males do Brasil são.” Numa sessão matinê do Cine Belford Roxo, Macunaíma apontou outros sentidos.


Mãe ia pro trabalho e eu pra escola, ainda no antigo bairro onde moramos. A gente chegava bem cedo pra pegar o trem, nem sempre tinha lugar pra sentar. O trem partia e lotava de mais gente pelo caminho. As portas não fechavam e os aventureiros viajavam ali, quase pra fora, os radicais tiravam onda surfando no teto dos vagões, desafiando a gravidade da lei. Saltar do trem antes da parada na estação era uma “arte” que eu tinha em mira, um dia tomei coragem... saltei sem pensar em nada, com cara no chão, ouvi alguém dizer: “Levataí...e quando saltá, segue no embalo, sobe o ombro pra não cai de novo.” No pulo seguinte, dei embalo nas pernas, feio com os ombros e triunfo em prumo.



Mudei de escola para fazer o curso de Admissão mais perto. Saltava do trem em São João de Meriti e encurtava o caminho passando pela Feirinha da Pavuna; parecia um túnel, as barracas cobertas por lonas emendadas umas às outras, incluindo os corredores. Os feirantes permaneciam ali até tarde; às vezes eu pensava que pernoitavam por ali mesmo e emendavam um dia de trabalho no outro. Tenho comigo que a Ferinha da Pavuna é a avó do Shopping Center, pois tinha de um tudo por lá e funcionava com sol, chuva e lua.


Um dia parou um carro na entrada da vila, e no para-brisa do carro tinha um adesivo. Eu li e foi muito estranho. Eu fiquei ali lendo e relendo muitas vezes – BRASIL: AME-O OU DEIXE-O! –, querendo entender o porquê da contradição daquilo que estava sendo dito, e eu discordava com muita indignação. Por que alguém me obriga a amar o que eu já amo, a ponto de me obrigar a deixar o que amo? Se o que amo tem algo que eu não gosto, não vejo motivo para deixar o que amo, se for possível mudar ou ignorar apenas o que eu não gosto. Eu amo o Brasil e não devo ser obrigado a deixá-lo! Eu fiquei pensando nisso e vi outro carro, depois outro e muitos outros carros, com o mesmo adesivo. Eu sentia uma indignação que eu nem conhecia.

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