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O PINGO D'ÁGUA

  • Foto do escritor: Pablo das Oliveiras
    Pablo das Oliveiras
  • há 7 dias
  • 3 min de leitura

“Já morei em tanta casa que nem me lembro mais”... o “cara” levantou os braços e fez coro com a música no rádio. Rodeado de caixas, cantava e sorria, lembrando as tantas casas em morou. Continuou vasculhando armários, gavetas, tirando a poeira do tempo, embalando o que era necessário levar na mudança... de repente, surpresa e emoção... Uai!! Meu Álbum da Copa de 1970... Caramba! Ano da mudança pro Jardim Redentor...


O bairro ficava na Baixada Fluminense, distante de tudo. A estrada principal era de barro batido. Em dia de sol, a nuvem de poeira subia toda vez que passava um carro, um ônibus. Quando chovia, formava um mar de lama e um saco plástico era a salvação para pés e sapatos chegarem limpos e respeitáveis aonde quer que fossem. A nossa mudança entrou por uma porta de madeira, que abria direto pra calçada da estrada, e tinha um corredor largo e comprido, com telhado até a outra porta, que dava pro quintal da casa. A família se acomodou na nova casa, saindo e entrando pelo portão que havia numa cerca lateral, em um terreno baldio. O tal corredor, que era a entrada, ganhou outra finalidade. Um bar.


A porta de madeira, espremida entre duas portas de aço, firmou a novidade em sua fachada: BAR PINGO D’ÁGUA. A declaração pública não foi ignorada nem os pastéis fritos na hora, pra acompanhar a cerveja gelada. A mãe à frente no balcão dava ao bar ares de ambiente familiar e, o pai, trabalhava como autônomo. No Pingo D’ Água, o pingo não parou de pingar e a fonte foi firmando uma freguesia própria, e não demorou pro Bar ficar apertado. O passo adiante foi negociar a abertura da porta de aço da loja ao lado. O pai colocou prateleiras na parede, aumentou o balcão, pôs em cima uma pequena estufa de salgados – não faltaram ovos coloridos –, e uma pia foi instalada. Trouxe de casa o fogão, a geladeira, armou mesas com cadeiras, no centro do salão, pra mesa de sinuca reinar com o manto verde. Perto da porta, sem atravancar a entrada, ficou a barulhenta mesa de Totó. O pai deu por terminado o trabalho, porém, não satisfeito, voltou casa pra buscar a rádio vitrola.



O pessoal que frequentava o Pingo D’Água era muito interessante. Um dos pioneiros foi Seu Devanir, da Velha Guarda do Samba, que cantava grave e era desdentado; com a mão direita marcava o ritmo na mesa, com a concha da esquerda à boca pretendia estender sua voz rouca. Fernandão, sóbrio, era um boa-praça, um bom taco na sinuca; depois dos primeiros goles, destilava um humor ferino contra seus desafetos. O tímido ou sonso Tatu chegava sozinho e, em pé no balcão, pedia uma Antarctica, olhava tudo e ria miúdo pra si mesmo. Seu Jaci, que só bebia Skol, trabalhava na Zona Sul e morava no mesmo sítio onde vivia Seu Max, pai da Miss Brasil de 1966 – as misses gêmeas. O “Ninguém-me-ajuda” odiava o apelido que lhe deu fama, assim, ele era chamado pelas costas. Vez ou outra Dona Boneca aparecia no Pingo D’Água, chegava sem muita firmeza, já avançada na idade e na pinga; ninguém sabia onde ela morava. A Prof.ª Vitória e a filha do meio do bar eram amigas. Hélio e Barriga eram amigos do filho mais velho do bar; Barriga viveu uma paixão fatal com a irmã do meio, tornando-se inimigo da família. Hélio era um quase noivo da irmã do amigo... Também tinha o Inácio, que não entrava, só passava em frente do Pingo D’Água, quando ia e vinha da escola, era o enteado do cego, até que entrou pra reforçar seu estudo, ali mesmo à mesa, era ele que ensinava batuques ao filho caçula do bar.


Convívio assim, se forma pouco a pouco, até virar rotina, não sem os afetos de cada um e as conversações entre todos, ou quase. Um freguês que chega e depois volta, começa um convívio, se o pastel e o PF estiverem a gosto, se a cerveja cair bem e até cair com a gargalhada ou souber encarar o desafio na sinuca, aos dramas silenciosos. Entre as mesas do Pingo D’Água, havia “conversa fiada” e termos de responsabilidade. Assim se firmavam as intimidades, as cumplicidades. De maneira diversa, todos se serviam aqui e ali, como na mesa da própria casa. Todos no bar eram temperos e temperaturas das fermentações produzidas. O Pingo D’Água convergia com a freguesia para contínuas trocas nas convivências, depois do trabalho... antes do retorno pra casa... No rádio a música também convergia... “Esse cara sou eu”...


NOTAS:

  • “PAIS E FILHOS”, canção de Legião Urbana, 1989

  • “ESSE CARA SOU EU”, canção de Roberto Carlos, 2012

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