QUINTAL ANCESTRAL
- Pablo das Oliveiras

- há 2 dias
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Ando feito um gato pela casa, sem esbarrar nas caixas à espera da mudança. Pela casa, as etiquetas confrontam minha atenção: LOUÇAS E VIDROS... OBJETOS DA COZINHA... DISCOS DE VINIL... CUIDADO LIVROS! O aconchego da casa cedeu ao depósito funcional, onde ponho e sobreponho os DESOBJETOS e outras peças do atelier, abrigados pelo plástico bolha, e que assim permanecerão ao dispor do próximo porto e aconchegos.
Ah! essa cadeira... meus acentos ancestrais: RECIFE – DUAS BARRAS – RIO. Lugares de memória... Recife e a irmã Clarinha de olho azul, que meu pai, Antonio, manteve no silêncio de suas memórias. Ele ainda um “puto” – assim mesmo, na fala do meu avô português ou ainda um “moleque” – do banto mulato, na língua da minha avó, num português emprenhado pelas mulheres pretas. Por alguma contrariedade familiar, pai foi chorar escondido no porão de navio, no porto do Recife... Com sentidos nas lágrimas, não nos movimentos das águas, o navio partiu e ele veio ter-se com o Rio de Janeiro...
Duas Barras, de lá minha mãe colhia história pra me contar: “minhas irmãs me chamavam, Caçulé.” Recontava para não esquecer: “minha avó comandava toda a casa, ela era índia e foi pega no laço...” – eu levei anos até desmitificar o tal laço, um rapto seguido de estupro. Falava da mãe Graciana, com os olhos úmidos: “era tão bonita, cabocla com ondas largas no cabelo... Os tios trabalhavam no cafezal, Tio Juca de chapéu e terno branco de linho era o mais vistoso nas festas...” De repente, o assombro, era a voz do vô Anielo... eu ouvia: “o lombo dos pretos ardia no chicote, por qualquer coisa no cafezal... Pai sofria do miolo e tinha apego comigo, por ser preta que nem ele...” A família morava ajuntada numa fazenda, “Teve uma noite, minha irmã que deitava com nossa avó, reclamou: mãe, eu não quero dormir aqui! Repetiu até que nossa mãe consentiu na despedida. Na manhã seguinte, vó não acordou para coar o café. Daí pra frente, a vida deu pra trás. Os tios foram tirar trabalho noutra estância; mãe teve que dividir os filhos na casa de uns e de outros. Eu tinha 7 anos, Maria Paula, minha irmã, tinha 6 e o Zé Henrique, 9... Nunca mais a gente voltou a ver nossa mãe...”
No Rio de Janeiro, pai e mãe se conheceram num domingo, passeando pela Quinta da Boa Vista. Ela resistiu e ele insistiu indo até São Paulo, onde mãe foi morar com família que a empregava como doméstica; casaram por lá. De volta ao Rio, Antônio Filho nasceu primeiro. No ano seguinte, nasceu Regina Helena. Um ano depois, nasceu Maria Lúcia, que veio a falecer antes de completar 2 anos. Quatro anos depois desse triste evento, veio o temporão. Eu pardo, mulato, moreno, nasci indígena-preto numa casa portuguesa, pelas semãos de d. Diva, a parteira, e das vizinhas d. Zênith, uma espanhola, e d. Thereza, uma italiana.
Até os 9 anos de idade, eu palmeei e corri pelo terreiro do Sobrado, onde morei no andar de cima, e o porão alugado às três irmãs chegadas do Nordeste, com os meninos Ubaldo e Wilson, uma amizade selada. Ao fundo do terreiro, duas casas de madeira com tetos de zinco; na maior moravam Seu Tião, d. Dalva com as filhas e os filhos, noutra moravam Seu Aristeu, d. Maria, o filho Aristeu, que fazia pipa pra vender, e a irmã Aristeia recebia uma turma de crianças para reforço escolar, na sua pequena casa. Uma mangueira centenária, que reinava entre os pés de frutas no terreiro, me desafiava a escalar seu frondoso tronco, até alcançar o salão dos galhos, sentar com as mãos livres, como Ubaldo e Wilson, e me lambuzar de manga madura. Ao nosso assovio, o Menino vinha abanando o rabo embandeirado de pelos, minha irmã Regina deu este nome pra ele. A cabra chamava Branquinha e seu filhote, Loló; o galo era Valdemar e Preta, a galinha, que mudou com a gente pra várias casas. Ela morreu três vezes, na primeira e segunda morte ressuscitou das covas rasas, sacudindo a terra das penas; na terceira morte, por precaução, fizemos um velório, daí ela morreu pra valer. Nessa família diversa, a rua Ibiapaba, no Engenho da Rainha, a despeito das fofocas e maus humores na vizinhança, eu não entendia, porque precisava abandonar a casa da gente, pra morar numa casa qualquer.
Mudei, atravessando de uma cidade a outra. Viajar de trem enchia meus olhos e ouvidos, tantas mercadorias na lábia dos vende dores e comprado res pelos vagões, no túnel de sonoridades. Seguia gostando de conhecer os bairros revelados nos fotogramas das janelas. Impressões... como a cidade parecia o terreiro da casa em que eu nasci... ou seria o inverso? Como minha imagem no espelho... Quando me vejo acatando e contestando ideias de identidade aos reconhecimentos das minhas ancestralidades de pessoa indígena e preta ; do colonizador português, me basta a língua, que amo e que o nosso povo – sabemos mestiçar e enriquecer .
NOTA: Ibiapaba – do tupi-guarani: “terra fendida” (yby = terra, 'ab = cortar/fender, aba = sufixo. Significado: “terra elevada”. Refere-se à formação da serra no Ceará, por suas escarpas.






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