A BARRA QUE NÃO SE MISTURA
- Leonardo Soares dos Santos

- há 1 dia
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A ideia que hoje temos da Barra da Tijuca como uma região que nada tem a ver com a Jacarepaguá é tão forte, que para muitos e muitas, essa verdadeira cisão sempre existiu.
Curiosamente, tal concepção só começou a tomar corpo de maneira recente, no final do século XX, tendo em vista que Jacarepaguá foi fundada em 1594. Em diferentes zoneamentos da cidade, desde o período colonial, as duas localidades sempre fizeram parte da mesma unidade administrativa (paróquia, freguesia, distrito, zona).
Tenho para mim que a Barra só passou a se ver e a ser vista, pelos seus próprios habitantes, como algo que nada tivesse a ver com Jacarepaguá a partir do início dos anos 1980, quando se consolida um modo de ocupação do bairro com um perfil marcadamente de classe média branca e de alto poder aquisitivo: condomínios de luxo; clubes voltados para elite; shoppings, grandes avenidas; um espaço formatado para desencorajar vida comunitária, e formas de convívio e confraternização. Um território no qual o povo negro só seria bem-vindo na condição de trabalhador.
Algo que já não havia em Jacarepaguá. Onde, pelo contrário, havia ainda a permanência de formas suburbanas de sociabilidade, a existência de ampla rede de biroscas, armazéns, vendas, praças, esquinas, igrejas e terreiros. Contudo, essas formas de relação e produção do espaço também estavam presentes na Barra antes dos anos 80.
É que a força da visão sobre a singularidade atual da Barra acabou moldando a própria visão sobre o seu passado, fazendo com que aspectos de sua história fossem ignorados ou recalcados. Muitos imaginam que o maior "desenvolvimento" da Barra já se revelaria desde os primórdios. Nada disso. Poucos se lembram que até meados dos anos 60, a área da Barra e do Recreio era vista como um imenso areal, de pouco valor. Onde o principal atrativo era a extração de turfa e areia de suas praias.
Havia, sim, alguns pontos que foram alvo de investimentos da elite como o Itanhangá Gol Club ou o loteamento "Recreio dos Bandeirantes", idealizado exatamente para o deleite de ricaços.
Mas a elite também tentou incorporar vários pontos de Jacarepaguá com esse propósito. Na verdade, a própria elite não diferenciava os dois até mais ou menos o fim dos anos 70. Exemplo mais notável é o Plano Piloto de Lucio Costa, de 1969, que passou a ser conhecido como se tivesse sido concebido apenas para a Barra da Tijuca, sendo esse nome incorporado ao título. Porém, no texto original, o título é bem outro: "Plano Piloto para urbanização da baixada compreendida entre a Barra da Tijuca, o Pontal de Sernambetiba e Jacarepaguá". Ao fim ao cabo, a memória construída sobre esse projeto simplesmente ignorou as outras localidades, como se não existissem. A Barra como lugar da elite foi uma construção posterior. Tratou-se, inclusive, de um processo que implicou no despejo de moradores humildes e pretos que ali viviam há décadas. Dos anos 70 até os dias de hoje, a guerra contra os pobres e preto é tenaz na Barra que se quer chic e branca.





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