VIOLÊNCIA AFASTA CRIANÇAS DE JACAREPAGUÁ DAS ESCOLAS PÚBLICAS
- Felipe Lucena

- há 2 dias
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O bairro está entre os 10 da cidade do Rio com mais interrupções
de transporte coletivo em horário escolar nos últimos anos.
A violência está fixada em boa parte da cidade do Rio de Janeiro. Isso impacta diretamente na vida dos moradores. Com alunos da rede pública municipal de ensino não é diferente. Segundo um relatório inédito do UNICEF, Fogo Cruzado e GENI/UFF, cada vez mais crianças e adolescentes estão deixando de ir à escola por conta de conflitos armados.
De acordo com os dados, que têm como base órgãos públicos municipais e estaduais, o bairro da Penha acumula 252.921 minutos sem circulação de transportes públicos por conta da violência armada. Equivalente a quase 176 dias completos de paralisação no período de janeiro de 2023 até julho de 2025. Em segundo nesse ranking, Jacarepaguá registra 184.187 interrupções no mesmo recorte de tempo.
Praticamente metade dessas suspensões nos serviços de transportes ocorreram em dias letivos e no horário escolar. Os dados do relatório mostram que entre janeiro de 2023 e julho de 2025, 1.084 das interrupções ocorreram entre segundas e sextas das 06h30 às 18h30, o que representa 49% do total.
A maioria das interrupções é prolongada: 52,5% ultrapassaram 4 horas, "tempo suficiente para afetar turnos inteiros e provocar suspensões de atividades escolares", destaca o relatório.
O período da manhã concentra os maiores potenciais para repercussões para a mobilidade: 52,8% das interrupções ocorreram entre 6h30 e 8h.
"A caracterização geral das interrupções indica um padrão de instabilidade estrutural; no entanto, para compreender como esse fenômeno se manifesta na mobilidade cotidiana de crianças e adolescentes, este estudo adota a educação como recorte empírico e analítico. Os dados do campo educacional são mobilizados não como um fim em si mesmos, mas como um instrumento para analisar a mobilidade, uma vez que os trajetos entre casa e escola constituem deslocamentos regulares, previsíveis e centrais na rotina desse grupo. Nem toda interrupção de transporte afeta diretamente crianças e adolescentes ou compromete o acesso à educação. Ainda assim, interrupções dessa natureza alteram a dinâmica urbana e podem dificultar o acesso cotidiano de famílias a diferentes serviços essenciais, como o direito à educação, a saúde, a cultura a ao lazer. Neste estudo, a análise se concentra no acesso à educação porque é nesse campo que há maior disponibilidade e consistência de dados para mensurar os efeitos da mobilidade interrompida. Quando ocorrem em dias letivos, durante o horário escolar ou ao longo dos percursos casa-escola, essas ocorrências tendem a impactar de forma mais direta a mobilidade segura de crianças e adolescentes e, por extensão, o acesso à educação", detalha o relatório.
Para a psicóloga Cláudia Melo, especialista em saúde mental e atendimento a crianças e adolescentes, os efeitos de longo prazo para estudantes que têm a rotina escolar interrompida por tiroteios constantes podem ser graves.
"A repetição do medo desorganiza. A escola, que deveria ser um espaço de continuidade, torna-se imprevisível. Com o tempo, surgem insegurança, dificuldade de aprendizagem, de confiar e até de imaginar o futuro. Algumas crianças passam a naturalizar a violência — o que é extremamente grave. Do ponto de vista humanista, quando a experiência não encontra acolhimento, ela não é integrada e permanece como algo mal resolvido dentro da pessoa", afirma.
A psicóloga complementa: "Uma criança com medo não aprende. O cérebro está ocupado tentando se proteger, o que compromete memória, atenção e vínculos. Isso também impacta a autoestima, pois ela pode se sentir incapaz, quando, na verdade, está em sofrimento. A aprendizagem exige segurança emocional. Sem isso, não há entrega, nem presença".
O DIÁRIO DO RIO procurou a Prefeitura e o Governo do Estado através das secretarias municipal e estadual de educação e também a pasta responsável pela segurança pública para comentar os dados do relatório e o conteúdo da reportagem.
A Secretaria Municipal de Educação (SME) declarou que
"para minimizar os impactos pedagógicos das interrupções em decorrência de operações policiais oferece estratégias como reforço escolar, apoio pedagógico nas próprias unidades, Aulões Cariocas para tirar dúvidas, videoaulas com questões comentadas e materiais específicos de reposição. As equipes escolares também organizam planos de recuperação adaptados à realidade de cada comunidade escolar. A Secretaria Municipal de Educação, em parceria com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, implementa o Programa Acesso em escolas da rede municipal de ensino situadas em áreas impactadas pela violência armada. O objetivo é mitigar riscos, orientar a comunidade escolar e garantir protocolos eficazes para minimizar o impacto da violência armada no ambiente escolar. O programa, considerado referência internacional, é essencial para garantir a continuidade da educação e a segurança de alunos e profissionais. A metodologia aplicada é ajustada de acordo com a especificidade de cada território e envolve planejamento conjunto".
Já a Secretaria de Segurança Pública informou que que
"não se manifesta sobre os dados apresentados no relatório, uma vez que desconhece a metodologia utilizada. A fonte oficial de informações do Governo do Estado é o Instituto de Segurança Pública (ISP), responsável pela consolidação e análise dos indicadores de criminalidade. Para retirar barricadas instaladas por facções criminosas e que impedem o direito de ir e vir de moradores, o Governo do Estado iniciou em novembro de 2025, a Operação Barricada Zero. Desde então já foram removidas mais de 4.500 toneladas de barricadas e quase 4 mil vias foram liberadas em 12 cidades do Rio de Janeiro, beneficiando cerca de 2,6 milhões de pessoas. A força-tarefa reúne órgãos estaduais e prefeituras e tem a finalidade de retirar bloqueios e restabelecer a circulação segura nas comunidades. Vale ressaltar, ainda, que para preservar a vida dos estudantes, familiares, e profissionais da educação, sempre que ocorrem operações policiais nas comunidades, as secretarias municipal e estadual de Educação são previamente comunicadas, em conformidade com as determinações do Supremo Tribunal Federal no âmbito da ADPF 635".




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