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PASSE-SE ESTA CASA

  • Foto do escritor: Pablo das Oliveiras
    Pablo das Oliveiras
  • 29 de jun.
  • 2 min de leitura

Estava ali bem perto e eu não sabia. Eu ia e vinha de casa pra escola, seguindo pela rua em direção ao Bairro Araújo. A Cidade de Deus estava bem ali, na direção contrária. Mudamos de repente, com a urgência de quem pula o muro da vila pra casa vizinha. D. Eduarda, uma antiga moradora da rua. Pai, mãe e eu moramos alguns meses arranjados como hóspedes, por assim dizer, num pensionato improvisado pela viúva. Mesmo a casa sendo espaçosa, a convivência se ajustava; meu irmão Tonzé, arranchado no Exército, vinha de visita, às vezes. Nós estávamos em repartições. Para mãe e pai era um quadro repetido, na parede do quarto de suas memórias, como eu nem sabia...



Mãe saiu a campo, o campo era a Cidade de Deus, mesmo sem ler, concluiu o apelo das tabuletas penduradas: “PASSA-SE ESTA CASA”. A negociação foi direta entre o vendedor e nós, compradores. A “palavra” era o documento, às vezes acompanhado de qualquer papel da COHAB, com a localização da quadra e da casa; foi o nosso passaporte de entrada pela porta lateral na cozinha, até a salinha, o banheirinho, dois quartinhos. A casa ainda estava com o padrão original, telhado de acento circunflexo e frente com janelinha virada para a praça. Mudamos para a Cidade de Deus, em 1973, no último dia do capítulo da novela O Bem Amado, sete anos depois que o Conjunto Habitacional recebeu em despejo as famílias removidas das favelas da Zona Sul e os desabrigados das enchentes, nos anos de 1960. Ainda não era a Praça das 17 Árvores, mas tinha jogo de queimado, golzinho de chinelo, festa junina, animada pela Thiana, o Toninho, a Penha, o Jorge Bezerra e eu, que éramos grandes amigos. De nossas janelas, nós vimos o plantio das 17 árvores... por cima dos muros subindo, vimos como elas cresceram pra renomear a Praça Macena.


Se o mês de novembro começa morno, o dia do aniversário do Bezerra não! Festejávamos a data e os encontros com entusiasmo, na casa do amigo. Ali eu dei um passo, e ainda não sabia estar a caminho que se abria para outros tantos caminhos. Conversa animada de quem ao ouvir e falar, em si vai plantando as sementes das ideias, traçando o projeto de um grupo cultural... Desfolhando em nós as páginas de uma Revista... Aquela Praça desdobrou-se com meus pensamentos, estendeu pontes sob meu pês , arregalou meus olhos ao que passamos a chamar comunidade Cidade de Deus. Dali em diante movemos o Grupo Cultural Projeto; o Grupo Perspectiva, a Revista Nós – RN; e o Jornal O Amanhã, edições impressas por mimeógrafo, de um jornalismo popular na Cidade de Deus. Muito mais havia de gente e movimentos praticados no lugar, que se refazia. Antes de nós, havia os veteranos do COMOCIDE*, fundado por moradores chegados das favelas, firmes em refazer o convívio de vizinhança e buscar melhores condições de vida no lugar, que nunca foi reconhecido como Conjunto Habitacional, por isso foi chamado de Comunidade; traduzido como REFAVELA por Gilberto Gil; instituído como Bairro Cidade de Deus, por Decreto Municipal, mas é pela boca do povo que, em três letras, acontece diariamente o seu batismo-pagão: CDD.

*Conselho de Moradores da Cidade de Deus, fundado em 1968.

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