O EMBRANQUECIMENTO DE BARRA DA TIJUCA E ITANHANGÁ
- Leonardo Soares dos Santos

- 21 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Seja carioca ou não, ninguém consegue associar o nome Barra da Tijuca ou Itanhangá com imagens que não remetam a clubes (alguns luxuosos), condomínios de alta classe média, campos de golfe, shoppings refinados, carros importados transitando pelas largas avenidas da região. Um e outro bairro são as marcas da bonança e requinte.
Um dos marcos desse imaginário dominante é o Itanhangá Golf Club, com seus 27 buracos, que começaram a ser abertos em 1933 e que estreariam dois anos depois, com o patrocínio de Getúlio Vargas.
Quanto a Barra, sobre ela havia uma singularidade que sempre foi destacada pela imprensa, desde pelo menos os anos 40 e que segue sendo sublinhada: a sensação de paz e tranquilidade, típica de um verdadeiro balneário. Inimaginável que num lugar desses, tão aprazível e pacato, houvesse espaço para conflitos violentos, disputas às vezes sangrentas e contendas judiciais que atravessaram décadas (até séculos, num rumoroso caso….).
Pois bem, isso tudo aconteceu. Mesmo em lugares como Itanhangá e Barra da Tijuca (e ainda acontece!).
Para quem está disposto a recuar bastante no tempo, indico o formidável estudo da professora da UFRJ Fânia Fridman (Donos do Rio em Nome do Rei. Uma História Fundiária da Cidade do Rio de Janeiro). Fania constata que a violência foi a norma no processo de apropriação de terras da região. E isso tanto no período Colonial quanto no Imperial. E seguiria sendo na era Republicana. Quem tiver curiosidade basta dar uma conferida nas notícias da imprensa, principalmente a partir dos anos 50.
No caso do Itanhangá podemos flagrar a luta envolvendo, de um lado, famílias de pescadores que lá habitavam às margens da Lagoa da Tijuca, do outro, o Golf Club. O embate se arrastou por anos, com acusações de ambas as partes de acesso ilegal às terras do lugar. Ao fim e ao cabo, a parte mais frágil saiu perdendo, mas depois de tenaz resistência.
Quanto à Barra, o noticiário do início da década de 50 dá conta de conflitos entre vários pretensos proprietários. O mais rumoroso deles foi o que envolveu os nomes do professor Goulart e Madame Grimaldi. O primeiro seria acusado de mandar assassinar um antigo arrendatário que ocupava um lote da Fazenda da Restinga, cuja propriedade era reivindicada por Goulart, mas contestada por muita gente.

E os conflitos não parariam por aí. Pelos anos que se seguiram, inclusive durante a ditadura militar, eles se agravaram. Na maioria dos casos, o grupo mais vulnerável sofria os maiores danos. Estamos falando de um enorme contingente de pequenos lavradores e posseiros humildes que contribuiram para a formação do território e que foram sendo gradativamente expulsos de suas terras.
Há que se lembrar de que para se tornar o que é hoje, um paraíso da classe média branca, Barra e Itanhangá teve que expropriar sua população preta e pobre. Um fato cuja memória precisa urgentemente ser trazida à luz novamente.






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