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JACAREPAGUÁ É TERRA TUPINAMBÁ

Foto do escritor: Ana Melo
Ana Melo
há 10 horas
6 min de leitura

A ausência dos indígenas na história de Jacarepaguá nos leva a procurá-los nos relatos de cronistas e viajantes no início da colonização do Rio de Janeiro, entre os séculos XVI e XVII. Os sítios arqueológicos, que poderiam dar testemunho da ocupação indígena, foram “apagados” pela ação colonial, gerando, desta forma, um vazio historiográfico, o qual os pesquisadores procuram identificar e mapear, tanto no campo arqueológico como no histórico. Entretanto, não é tarefa fácil encontrar esses vestígios, perdidos no meio de uma documentação arquivista que os descaracteriza e miscigena, trazendo, com isso, uma imensa invisibilidade.


Atualmente, pesquisas sobre histórias locais apresentam diferentes estratégias para preencher lacunas que contribuam de forma efetiva para o resgate da história do Brasil. É nesse sentido que esse capítulo se insere, objetivando fazer notável a presença indígena na história de Jacarepaguá, sua contribuição nas denominações geográficas, na abertura de caminhos, na domesticação de plantas e animais, como força de trabalho nos engenhos, entre outros. Em particular, pelo fato de ser um bairro cujo nome tem origem no tupi-guarani, significando “lagoa rasa dos jacarés".


Os Tupinambás em Jacarepaguá


De acordo com estudos arqueológicos, os primeiros povos que ocuparam a lagoa de Jacarepaguá - que compreendia desde a atual Barra da Tijuca até Irajá - foram os sambaquieiros. Os sambaquis, que dão nome a esses agrupamentos humanos, são amontoados de conchas, ossos e artefatos localizados próximos ao mar e lagoas, encobertos por areia e vegetação, que abrigam a cultura material e trazem pistas do modo de viver de tais grupos.


Posteriormente, esses povos se espalharam por todo o território, transformando-se em ceramistas e se autodenominando tupinambás. Quando de sua chegada ao Rio de Janeiro, os portugueses adotaram a denominação tamoios, nome pelo qual essa etnia era chamada por seus inimigos.

Tamoio (ou tamuia) vem do tupi e significa “avós”, “mais velhos” ou “antepassados”. Eram assim chamados por um grupo de tupinambás mais novos (os temiminós: “mais novos” ou “netos”) que saiu da aldeia e se aliou aos tupiniquins, seu principal inimigo.


Os tupinambás viviam em aldeias, também chamadas de tabas, que eram unidades políticas com autonomia e comandadas por um líder, que recebia a denominação de morubixaba, cacique ou tuxaua. Essas aldeias tinham em sua maioria de quatro a oito malocas com formas retangulares, pátio interno para festas, rituais e assembleias, com cercas de proteção englobando todas as malocas.



Das aldeias mapeadas no século XVI, Takûarusutyba e Okaranti eram as maiores em termos populacionais e territoriais. Ficavam no interior do Rio de Janeiro. Okaranti estaria localizada onde hoje estao os bairros de Bangu até Seropedica e Takarûsutyba onde estão os bairros da Freguesia, Pechincha, Curicica, Tanque e Taquara.

Silva, Rafael de Freitas da. “ O Rio antes do Rio” Ed. Relicário. BH. 2021. P.160


Os tupinambás domesticaram muitas plantas e animais. Além da caça e pesca, eles desenvolveram práticas de agricultura e cerâmica. Milho, mandioca, batata-doce, amendoim e tabaco eram alguns dos gêneros alimentícios plantados, assim como o algodão, usado para confecção de redes e plantações de árvores frutíferas ao redor da aldeia.


A prática da antropofagia era comum esses povos que tinham a guerra como uma forma de sociabilização.Os rituais antropofágicos tinham grandes valores simbólicos para os povos indígenas, tanto que os jesuítas compararam com o ritual católico da santa Ceia, que para eles é o corpo e o sangue de Jesus Cristo.


Segundo o antropólogo Pierre Clastres, para os indígenas “o mundo que os rodeia não é um mero espaço neutro, senão a prolongação viva do espaço humano”, sendo assim, ao se alimentarem do corpo de outro indivíduo, seja em ritos de passagem para a fase adulta ou na ritualística de guerra, era um processo profundamente sagrado e respeitoso com os inimigos, prolongando sua vida em seus corpos e incorporando suas qualidades que foram tidas como dignas. A religião indígena entende todo ser como parte de um todo mutável constantemente. Não se morre, se transforma. Assim como um inimigo de guerra faz parte do próprio ser que ora se alimenta dele. Assim como quem morre de forma natural, vira um “encantado”, transformando-se em animais e vegetações que servirão de alimentos também, num ciclo de vida e morte onde o espírito está presente em tudo e em todos como um único ser.


Tinham grande conhecimento de astronomia, prevendo chuvas e marés altas através da observação do Sol, Lua e estrelas e usavam o calendário lunar para agricultura e para contagem do tempo. Também eram conhecedores do que hoje temos como ecologia, fazendo hibridações genéticas e classificando toda a botânica e zoologia da Mata Atlântica, não ficando aquém da ciência produzida na Europa quinhentista.


Exemplo disso foi o relato dos cientistas Von Martius e Spix, que estiveram no Brasil no século XIX para estudar a Botânica e Zoologia locais: “a denominação dada pelos índios a diversos macacos e a certas palmeiras foi para nós um guia na investigação dos gêneros e espécies, pois quase cada espécie tem um nome indígena próprio” (1818).


Sendo assim, fica evidente que, sem o conhecimento dos povos indígenas, nenhum europeu sobreviveria, não teriam o que comer e nem se estabeleceriam. Em um território como o Rio de Janeiro, disputado por franceses e portugueses, os indígenas foram fundamentais como soldados, guias e hospitaleiros. Os franceses foram os primeiros a chegar na região em meados do século XVI (por volta de 1555), buscando refúgio dos conflitos entre católicos e protestantes na França, se aproveitando do fato de que os portugueses (a quem o território “pertencia”, pelo Tratado de Tordesilhas) ainda não o tinham ocupado. Liderados por Villegaignon, ocuparam algumas das ilhas da Baía de Guanabara e nomearam a região de “França Antártica”. Ao saberem da notícia, os portugueses vieram da Bahia (onde plantavam cana de açúcar) para retomar a terra. Ao chegarem, tiveram de enfrentar não somente os franceses, como também os indígenas, com suas guerras intertribais, pois tais povos tinham a guerra como uma forma de sociabilização e a vingança e a morte cerimonial como elementos centrais em sua cultura.

Tratado de Tordesilhas: Foi um acordo realizado em 1494 entre Portugal e Espanha, que dividiu o mundo conhecido em duas partes, através de uma linha meridiana imaginária.


Como em todo Pindorama, não havia “índios” e sim dezenas de povos inimigos e aliados. Os lados dos invasores europeus também foram escolhidos pelas negociações e trocas. Os tupinambás escolheram o lado dos franceses e acabaram perdendo a batalha final contra os portugueses pelo domínio do território, naquela que ficou conhecida como Guerra dos Tamoios.

Pindorama: Era o nome que os povos indígenas falantes do tronco linguístico tupi nomearam o Brasil, e significa terra da palmeiras.


O tronco linguístico tupi-guarani reunia mais de uma centena de línguas, e era o mais falado no litoral, inclusive pelos tupinambás moradores da bacia de Jacarepaguá. Conforme o avanço da colonização, franceses e portugueses aprenderam a língua para catequizar e fazer trocas comerciais.


Foram esses povos, assim como outros povos da Guanabara, que nomearam morros, rios, lagoas, animais e tiveram contato com portugueses e franceses na formação do Rio de Janeiro. Os caminhos desbravados, as demarcações de sesmarias (grandes extensões de terras doadas a particulares para a implantação de engenhos de cana de açúcar) e os nomes de locais foram designados por eles; muitos desses nomes, inclusive, se fazem presentes até a atualidade.


Logo, podemos pensar que a força de trabalho indígena foi utilizada no desbravamento e nas obras dos engenhos posteriormente. A ocupação colonial portuguesa iniciou-se primeiramente com os aldeamentos das ordens religiosas e posteriormente repartido em doações de sesmarias a particulares. Esse recorte em sesmarias passava por dezenas de aldeias, obrigando os indígenas a formarem alianças na tentativa de manutenção de seus territórios.


Isso, infelizmente, não impediu sua escravização, como justificou em seu relato o religioso Gregório Serrão, reitor do Colégio Jesuíta no Rio de Janeiro: “…porque não há gente de trabalho nestas partes para alugar o jornal, nem os materiais se acham de compra, nos é necessário temos (sic) muita escravaria e a gente da terra governada e mantida de nossa mão.” (1529-1586).

Jornal: Pagamento da jornada de trabalho por meio de salário em dinheiro ou com mercadorias.


Chamados de negros da terra, os indígenas eram a população disponível e conhecedora do território para a implementação dos engenhos de açúcar. Assim, foram submetidos ao trabalho compulsório, ou de repartição, como era chamado o trabalho utilizado pelas ordens religiosas e por agentes governamentais, e que era análogo à escravidão.


Outra forma de trabalho era o doméstico, cujo pagamento era em sua maioria por meio de alimentação e objetos como roupas e utensílios, entre outros. Porém, não se pode descartar as trocas comerciais entre portugueses, franceses e tupinambás e o poder sobre o território que esses povos indígenas detinham no início da colonização.


Conhecer a nossa história é a melhor maneira de valorizar nossas raízes e respeitar todo conhecimento transmitido ao longo dos séculos pelos povos indígenas! Anauê, Jacarepaguá! Terra de Tupinambá.

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