NOTAS SOBRE A CULTURA BANTO NO BRASIL E EM JACAREPAGUÁ
- Renato Dória
- há 2 dias
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Quitanda, farofa, quiabo, fubá, angu, quindim, jiló, maxixe, dendê, moleque, bunda, nenê, caçula, nanar, cochichar, cafuné, paparicar, sotaque, fofoca. Camundongo, minhoca, marimbondo, maluco, cachimbo, berimbau, cuíca, samba, jongo, maracatu, butuca. Capoeira, ginga, senzala, mucama, macumba, candomblé, umbanda, quimbanda. Estas e outras palavras que usamos cotidianamente são originárias de línguas bantas, uma herança africana por muito tempo negligenciada e menosprezada por estudiosos da cultura brasileira e esquecida pela sociedade. A palavra banto ou bantu significa gente, seres humanos ou pessoas: o prefixo ba indica plural e a palavra ntu corresponde a homem, ser humano ou pessoa.
Os bantos são um conjunto etnolinguístico de mais de 400 povos e línguas que se espalham pelas regiões central e sul do continente africano. Estão presentes hoje em países como Camarões, Gabão, Congo, República Democrática do Congo, Angola, Moçambique, Uganda, Quênia, Tanzânia, Zâmbia, Zimbábue, Botswana, África do Sul e outros. Entre os séculos XVI e XIX, durante a vigência do violento e infame comércio escravista, aproximadamente 10 milhões de africanos foram trazidos à força para as Américas.
Estima-se que 4 milhões de africanos tiveram como destino as regiões nordeste e sudeste do Brasil entre 1580 e 1850 e deste total 75% eram bantos originários de Angola, Congo e Moçambique. Primeiro grupo étnico a desembarcar no Brasil e no Rio de Janeiro, os bantos foram chamados por nomes relacionados ao contexto do tráfico de escravizados: angola, congo, benguela, cassanje, cabinda, moçambique, indicando as feiras onde foram negociadas, portos nos quais foram embarcadas (como Luanda e Benguela) ou regiões de onde foram trazidas.
Ao serem forçadas a trabalhar sob inimaginável violência nas plantações e engenhos escravistas do Brasil, os bantos colocaram em prática as primeiras formas de resistência à escravidão com a reconstrução do modelo africano de quilombo. A propósito, kilombo é uma palavra umbundo, língua banta, com origens em uma instituição político e militar dissidente, centralizada, formada nas regiões do Congo e Angola durante os séculos XVI e XVII. O quilombo afro-banto era formado por indivíduos que haviam se desvinculado de seus grupos de origem devido a disputas políticas internas e submetia os novos integrantes a um ritual de iniciação.

O antropólogo Kabenguele Munanga afirma que o quilombo brasileiro é uma cópia do quilombo afro-banto. Reconstruído pelos escravizados para se opor ao escravismo colonial e implantar uma outra organização social e política, juntaram todos os oprimidos e transformaram esses territórios em espécie de campos de iniciação à resistência. A cultura banto foi, portanto, fundamental para a formação do Brasil. Não ficou restrita ao vocabulário, marca presença nos hábitos alimentares, nas formas de organização social e polítca, nas expressões culturais (música, dança, instrumentos musicais e religiosidade), na compreensão do mundo mas, sobretudo, na resistência ao escravismo colonial e na luta pela abolição da escravidão.
Com tamanha importância para a formação do Brasil, o que explicaria a negligência e o menosprezo de pesquisadores brasileiros sobre a cultura banto? Nos séculos XVIII e XIX, outro grupo etnolinguístico africano, proveniente da África Ocidental, passou a ter relevância no tráfico de escravizados para o Brasil: iorubás, haussás, jejes e outros. Pesquisadores como Nina Rodrigues e Arthur Ramos, que estudaram a presença africana no Brasil em fins do século XIX, classificaram este grupo étnico como “mais puro” e fácil de identificar.
Esses mesmos pesquisadores julgaram os bantos como “menos evoluídos” e culturalmente “rudimentares”, pois não apresentavam nenhuma distinção em relação aos costumes locais brasileiros. Pois, já se encontravam culturalmente inseridos e este fato dificultava as análises de suas especificidades africanas. O resultado desta interpretação foi o apagamento da cultura banto na sociedade brasileira e o nagocentrismo, uma vez que os legados dos povos da África Ocidental desfrutam de enorme reconhecimento e notoriedade até hoje. Para o antropólogo Vagner Silva, houve uma equivocada desqualificação dos bantos e a construção de falsas hierarquias entre os diferentes povos de origem africana existentes no Brasil.
Mas afinal, é possível identificar a presença da cultura banto em Jacarepaguá? Com certeza! Ela está presente no nome de estradas, como a do Cabungui, em Vargem Grande, cuja origem é a palavra banto cabungu, que significa chefe ou líder de comunidade ou aldeia. Outro nome de estrada é a do Guerenguê, que liga os bairros da Taquara e Curicica: sua origem pode ser a palavra banto guelengue,nome de um rio e província de Angola. Nesta estrada, inclusive, localiza-se um templo religioso de quimbanda. Na rua Jordão, na Taquara, também existe um templo religioso de candomblé Angola.
No Quilombo do Camorim, moradores afirmam serem descentes dos pretos bantos escravizados do antigo Engenho construído no século XVII. Lá, já receberam visitas da Rainha Diambi Kabatusuila, da etnia banto bena tshiyamba, da República Democrática do Congo e do Rei Tchongolola Tchongonga Ekuikui VII, da etnia ovimbundos, de Angola. Nesta comunidade, se pratica o jongo do sudeste, patrimônio cultural imaterial da cultura negra no Brasil com raízes banto que tem como característica o uso de instrumentos musicais esculpidos em madeira e afinados ao fogo, como o candongueiro.
No Quilombo Cafundá Astrogilda, a relação com a cultura banto está presente no nome: cafundá, seria uma mistura de banto e português. Além disso, nesta comunidade quilombola funcionou durante quase trinta anos um terreiro de Umbanda dirigido pela matriarca Astrogilda. A presença da herança cultural africana no Rio de Janeiro é diversa e não está restrita a um único grupo étnico. Bantos e iorubás contribuíram igualmente na formação da sociedade brasileira e devem ter o mesmo reconhecimento e notoriedade. É preciso compreender a multiplicidade de matrizes africanas presentes na nossa sociedade, desfaz
er os apagamentos históricos e reverter a equivocada ideia de inferioridade banto.
Fonte: Por Niger-Congo.svg: KimdimeNiger- -Congo_map.png: Ulammderivative work: Monsieur Fou (talk) - Niger-Congo.svgNiger-Congo_map.png, CC BY-SA 3.0, https:// commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=15148741


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