COORDENADOR GERAL FALA SOBRE OS DESAFIOS DA COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA
- Bianca Lopes de Freitas

- há 3 horas
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Almir Paulo: "Continuamos resistindo. Desistir jamais."
Agraciado com o Prêmio Carolina Maria de Jesus, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), em 11/12/2025, por iniciativa da deputada Renata Souza (PSOL), o Jornal Abaixo-Assinado de Jacarepaguá e das Vargens (JAAJ) completará 21 anos de resistência na comunicação comunitária em 2026. Essa resistência motivou a premiação que muito honra a equipe do JAAJ. Nesta entrevista, Almir Paulo, fundador do JAAJ e coordenador do seu Conselho Editorial, fala da história e dos objetivos do jornal comunitário nessa caminhada.
Bianca Lopes: O que o motivou a criar o JAAJ?
Almir Paulo: Nossa inspiração veio da militância no movimento comunitário e da participação na FAMERJ – Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro – onde enfrentamos barreiras na divulgação das lutas populares. Os jornais de bairro existentes na região representavam setores conservadores e clientelistas. A grande mídia simplesmente ignorava as lutas das comunidades.
Percebemos uma lacuna na cobertura midiática da Baixada de Jacarepaguá. Faltava um jornal comprometido com as lutas populares que trouxesse à tona as pautas das periferias e desse voz aos segmentos historicamente oprimidos. O Jornal Abaixo-Assinado nasceu, portanto, da urgência de se construir um espaço de resistência para os movimentos sociais e as comunidades locais.
Com o JAAJ assumimos a tarefa de dar voz aos movimentos sociais, denunciando injustiças, contando a história da região do nosso ponto de vista, dando visibilidade a talentos culturais e servindo como instrumento de conscientização, mobilização popular e resistência. Ou seja, a invisibilidade das pautas populares na mídia tradicional motivou nossa mobilização.
Bianca Lopes: Quando saiu a primeira edição?
Almir Paulo: Criamos uma rede de amigos para arrecadação financeira, fizemos rifa e, assim, lançamos a edição de número Zero em 10 de março de 2005. Um tabloide em papel jornal com oito páginas e 10 mil exemplares. Foi um tremendo sucesso.
Hoje estamos na 194° edição do jornal com impressão gráfica bimensal de 2 mil exemplares em papel offset quando temos recursos financeiros. A distribuição é gratuita nas ruas da região e junto aos movimentos sociais. Não tendo recursos, fazemos somente o digital que é publicado em nosso site. Somos atuantes também no facebook e no instagram. Continuamos resistindo. Desistir jamais.

Bianca Lopes: Quais os principais desafios para se manter um jornal comunitário durante 20 anos?
Almir Paulo: Por incrível que pareça, difícil não é a questão financeira, embora esse seja sempre um desafio. Desafiador mesmo é manter um grupo de pessoas voluntárias, em suas poucas horas disponíveis, fazendo acontecer o projeto de um jornal popular. A maioria desse coletivo não tem formação jornalística. Somos militantes de movimentos sociais da região e da cidade. Por sermos militantes vivemos os problemas de perto, lutamos, fazemos história e escrevemos e financiamos o Jornal Abaixo-Assinado.
Temos um Conselho Editorial e um núcleo coeso formado por Silvia da Costa, Pedro Ivo, Val Costa, Ivan Lima, Almir Paulo, Renato Dória, Cíntia Travassos, Maraci Soares, Claudio Mattos, Pablo das Oliveiras, Edelvira Varella, Tatiana Santiago, Felipe Lucena, Juçara Braga, Rodrigo Hemerly, Dona Jane, Dona Penha, Luiz da Vila Autódromo e o povo do Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá (IHBAJA). Recentemente, chegaram para somar o diretor da Federação das Associações de Moradores do Município do Rio de Janeiro (FAM-Rio), Sidney Teixeira, o escritor Magnun Alves, o comunicador Claudio Ligue Ligue, a professora Silvia Nunes, do Lions Clube Taquara, e a nossa estagiária Bianca Lopes.
O JAAJ tem ainda um grupo de amigos que contribui financeiramente, distribuem o jornal impresso e postam em suas redes sociais nossas reportagens. Assim, fazemos um jornal comunitário.
Bianca Lopes: Qual sua visão sobre o futuro da comunicação comunitária?
Almir Paulo: A comunicação comunitária tem seu papel junto aos movimentos populares, pastorais e coletivos de bairro que lutam por direito à cidade, regularização fundiária, moradia, respeito às culturas locais e acesso a serviços públicos de qualidade, em especial saúde, educação, saneamento e transportes. O futuro da comunicação comunitária permanecerá na tarefa de dar visibilidade às lutas do povo, denunciar as injustiças, a criminalização da pobreza e fortalecer a organização popular na Baixada de Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro e no Brasil.

Bianca Lopes: Como vencer desafios tão importantes como a falta de recursos?
Almir Paulo: Fazemos o JAAJ com paixão e somos persistentes porque acreditamos na importância dessa missão que engloba a defesa da qualidade de vida da população da Baixada de Jacarepaguá, principalmente daqueles renegados pelo poder público. Mais do que simples denúncias, buscamos um debate democrático, sem rótulos e preconceitos, que possa envolver todos os agentes sociais da região, fomentando iniciativas para tornar Jacarepaguá menos desigual.
Bianca Lopes: O que significa para o JAAJ receber o Prêmio Carolina Maria de Jesus?
Almir Paulo: O coletivo do Jornal Abaixo-Assinado recebe o Prêmio Carolina Maria de Jesus como um reconhecimento da comunicação popular feita a partir do território e para o território. Em uma região marcada pela desigualdade e pelo abandono do poder público, seguimos firmes na defesa da vida, dos direitos e da dignidade da população da Baixada de Jacarepaguá, em especial daqueles sistematicamente excluídos das políticas públicas. Nossa atuação vai além da denúncia: é uma prática política de enfrentamento às injustiças, de fortalecimento do debate democrático e de articulação entre os diversos agentes sociais para transformar Jacarepaguá em um espaço mais justo e igualitário.




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