A CASA CRÔNICA

No ano de 2020, o mundo adotou um protocolo para a vida e disse muito em poucas linhas, para o entendimento ser rápido e a adesão imediata contra o vírus. A mortal calamidade foi declarada como Pandemia da Covid-19, determinando o isolamento das pessoas em casa, até a descoberta da panaceia para o mal.
Um ano antes, eu havia dividido minha casa, na Freguesia, fechando uma porta e instalando uma pia estratégica, numa quitinete para alugar. Eu continuei morando ao lado; ainda assim, o lockdown chegou invadindo tudo. Praticamente, eu falar mais com Rudá, que respondia miando: durante o afastamento escolar, nossa comunicação se tornou mais próxima e inteligível. Com as crianças da escola, o tempo e o lugar eram outros, e ponte para os vínculos de afetos era o aplicativo digital no celular,. Naquele momento, quando quase tudo eram tentativas, eu consegui elaborar uma comunicação didática cabível numa rede de conversa digital.
Pelas mídias digitais, Zélia Batista e demais ‘compas’ mobilizaram apoios e recursos para formar um coletivo de mulheres da Cidade de Deus de produção de máscaras de barreira, distribuição de cestas de alimentos, às famílias em situação de vulnerabilidade do território. Logo percebemos a importância agregar livros para as crianças, como mais um alimento. Durante o caos pandêmico, o padrão de comunicação digital impôs-se como “mídia” de sociabilidades entre familiares, amigos e trabalhos online, passando a ditar os modos de produzir, perceber e manifestar opiniões a respeito de si mesmo, do outros e do mundo, com narrativas de fatos e ou boatos, Na socialização sem presença, sem lugar nem tempo físicos, o algoritmo espelha visibilidades desejáveis.

O meu rádio ligado foi também um apoio para manter os pés no chão, às vezes, era como uma terceira pessoa com quem eu trocava e confrontava ideias em silêncio. Selecionando as notícias e ouvindo músicas, criei estratégias para sobreviver emocionalmente. Atravessar a quarentena e a pandemia em casa, com segurança e emprego garantido foi um privilégio, enquanto os riscos eram terceirizados para mulheres e homens em trabalhos precarizados, rebatizados como "delivery", "lockdown" e "novo normal" — serviços e condições aos quais eu não aderi.
No entanto, fui mobilizado à quietude para de ler e escrever, e escrevi muito. Talvez por isso eu tenha transitado pela Caverna da Internet* sem ficar aprisionado nela. Nós que sobrevivemos ao vírus da Covid, agora lidamos com a síndrome pós-pandemia, mesmo assolando o nosso dia a dia, permanece invisibilizada. Sozinho em casa, eu mudei; o mundo mudou. O século 20 foi definitivamente superado pelo século 21. E eu sinto que envelhecer não é uma afronta, mas um aprendizado e a dignidade com que minha mãe envelheceu foi admirável. Entendi que precisava agradecer à casa que nós construímos e onde vivemos felicidades... Agradeci maturando meu desapego e dela me despedi, definitivamente. Eu arrumei as malas, reuni as lembranças, resguardei as memórias. Mais uma vez troquei de pele, deixei o casulo, alarguei minha carapaça e atravessei a Serra Grajaú-Jacarepaguá... Abrindo as asas... Alçando voo... Pousando mais leve. Porque a gente envelhece, porém a vida é breve.
*Fabulação: 10 contos narrados pela olhar da menina Bebel, nos seus dias de quarentena.
Texto: Pablo das Oliveiras
Performance narrativa: Maria de Lourdes da Silva


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