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COMO UMA CASA DA ROÇA

Foto do escritor: Pablo das Oliveiras
Pablo das Oliveiras
há 8 horas
2 min de leitura

“Começou a circular o Expresso 2222 da Central do Brasil

que parte direto de Bonsucesso pra depois do ano 2000...”


Era como se a música do Gil brotasse em mim, com a força expressa de mudança, às antevésperas do final do milênio. E a oportunidade surgiu do chão, pelo desafio de desenhar a planta da casa e construí-la em seguida. Terreno alto, na rua de calçamento “pé-de-moleque” subindo histórica, entre a Igreja do Loreto e a Igreja da Penna, ambas em graça de Nossa Senhora, há mais de três séculos encravadas na Pedra do Galo, donde se avista o maciço da Tijuca e, lá no pico, a esplêndida visão do mar.


Num recorte do morro, fiz subir minha casa, engastada com materiais garimpados de demolições, telhado de duas águas, o alpendre na fachada para ver o sol nascer e o luar, encher de graça como uma casa da roça. Como num sonho meu e as lembranças de infância de mãe... Nessa moradia, juntou-se a nós o cão Moleque; Leo e Lua, os gatos, para espanto e revoada dos pássaros, que por lá habitavam.


Pelas mãos de Dona Jô, aflorou o jardim agreste, as frutíferas semeadas cresceram ao compasso das estações, um gosto à parte, pelas antigas bananeiras em pencas, e suas bananas repartidas com os vizinhos, outras tantas maduras, com natural doçura, ferviam no tacho de cobre em fogo de lenha, no quintal.


No verão, nem tudo era fartura. A Companhia de Águas não reconhecia nossas bicas. Por anos fomos providos pelas mangueiras d’água da vizinhança. Numa carta- -dossiê enumerei os anos de secura e as agruras do reuso dos baldes d’água, e a lista de protocolos ignorando a solução para o problema. A carta foi entregue à mãe do presidente da Companhia de Águas, por um amigo em comum; quem diria, que num passeio à Casa da Flor, em São Pedra da Aldeia, eu confrontaria o “filho presidente”. Apresentei-me e ele retrucou: “É você que toma banho em pé na bacia e aproveita a água para limpeza do chão?” Sim, a carta chegou ao seu destino, foi lida e, após duas semanas, as águas compareceram às bicas de casa. O jardim floriu! A casa foi um espaço de arte e encontros festivos, leituras, literaturas e oficina de arte.



Num tempo outro, na minguante, a nossa gata se foi. Um céu escuro e ventos fortes anunciavam um turbilhão e virada do tempo... No entanto, havia ali uma árvore serena sob a tempestade... Sonhei eu... Então aconteceu a inesperada decisão de mudar de casa, o diagnóstico que mãe recebeu nos acompanhou, também um medo infiltrado por entre as caixas da mudança. Fomos morar, pela primeira vez, num apartamento, numa rua baixa, perto da casa que ficou vazia, lá no alto. Um, dois, três... sete anos depois, decidimos arrumar a casa e voltar. Moleque, o nosso cachorro , seguiu conosco, mas logo se foi... Um ano depois, ao lado do leito de mãe, seus olhos comunicantes, não me buscaram... sua tênue respiração fugia e ela também se foi... Meses depois! Meu irmão a seguiu... Um enorme sentimento de solidão fez crescer a casa e a envelhecer dentro comigo.

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