A BARRA DA TIJUCA COMO A "NOVA COPACABANA"

Enquanto a grilagem de terra rolava solta em Jacarepaguá nos anos 1940 e 1950, atingindo pequenos lavradores, a imprensa nem dava bola. Foram inúmeros os casos, mas foram poucos os jornais que se dedicaram a cobrir os acontecimentos em detalhes e com profundidade. Mas quando a Barra da Tijuca foi eleita como área de expansão voltado para as classes médias altas, a questão passou a ser considerada prioritária.
A esse respeito é bastante ilustrativa a reportagem publicada no Jornal do Brasil, em 27 de outubro de 1968 (1º Caderno, p. 43): “Região cheia de problemas – em virtude de seu crescimento desordenado e irregular – a Barra da Tijuca, Baixada de Jacarepaguá e Recreio dos Bandeirantes tem nos grileiros seu maior obstáculo para a urbanização”.
Mas para o jornal isso não era problema quando a região servia “à agricultura e à pecuária do antigo Distrito Federal”, como o mesmo jornal reconhece, apontando que tal desinteresse poderia estar ligado ao fato desse “complexo geográfico” (Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e a Baixada de Jacarepaguá) ter “pequeno valor fundiário” quando fazia parte do cinturão verde da cidade.
Mas a expansão da cidade para aquelas bandas modificaria o olhar da imprensa tradicional, ligada às elites econômicas e políticas do Rio (e que eram também do país). A Barra da Tijuca era vista como a extensão da zona sul. Daí que o preço do mercado imobiliário tenha dado um grande salto. Passou a ser lucrativo investir naquelas terras. Mesmo que isso representasse um risco, segundo o jornal:
“Com o aumento da cidade – não só demográfico, como industrial – passou a ser altamente compensador aplicar capital naquelas áreas, na compra de terrenos sub judice, como também de posses”.
Mas esse crescimento (populacional e do mercado imobiliário) não foi espontâneo. O poder estatal despejou enorme dinheirama pública para embelezar uma área específica da cidade. E para que isso realmente acontecesse era preciso acabar com a agricultura local. Na visão acrítica do jornal, tratou-se simplesmente de um processo de substituição, o atrasado foi superado pelo moderno, de maneira tranquila, sem conflitos:
“Depois da supervalorização daquela área, inverteram-se somas vultosas e o lavrador e o criador cederam seus lugares à urbanização”.
Detalhe esse que mostra que a valorização das terras da Barra não foi pensada para o disfrute de qualquer grupo, gente ou classe. A “nova Copacabana” não toleraria pobres. Eles seriam despejados para que o novo cenário fosse estabelecido.
Contudo, um personagem também quis faturar com todo esse crescimento:
“Surgiram então os grileiros, atravessadores que coagem, falsificam documentos e se instalam em terrenos da Marinha (aqueles situados nas margens de rios e lagoas, até onde se faça sentir a influência das marés, numa profundidade de 33 metros do preamar médio)”.
Uma versão sobre os acontecimentos equivocada. Porque os grileiros já lá estavam desde pelo menos os anos 1930. O investimento do governo certamente potencializou os seus planos de ganhar dinheiro com a venda de terras na região. Mas tal atuação só se tornou um problema (para a imprensa) na medida em que ele pudesse atrapalhar os planos de efetivação da “nova Copacabana”.


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