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A arte e a cultura destruída pela especulação imobiliária e a omissão da Prefeitura


066 fotos museu e prédios

Caso de amor com a cultura popular brasileira quase acaba em tragédia e dá adeus à região das Vargens

*Por Giovana Berti

    Lembranças da minha infância, que se revezam entre o Largo 13 de maio, bairro tradicional nordestino em São Paulo e férias nas praias da Zona Oeste do Rio de Janeiro, me levam a pensar e entender sobre o motivo pelo qual o pintor Jacques Vande Beuque, se apaixonou pela cultura popular brasileira, quando refugiado de campos de concentração da Alemanha, chega ao Brasil nos idos de 1946. Em uma viagem a Pernambuco, ao conhecer mestre Vitalino e outros artistas, dá início ao seu acervo. Em 1974, compra um sitio na região do Recreio dos Bandeirantes, bairro conhecido como área rural da cidade, para abrigar as obras, onde após sucessivas reformas inaugura um espaço de exposição permanente com mais de 3500 obras. Com isso, seguindo parâmetros internacionais, em 1995, a “Casa do Pontal”, torna-se “Museu Casa do Pontal”. Atualmente o museu é o mais importante museu de arte popular do Brasil, sendo, referência cutural, turística e antropológica não apenas no Brasil como no mundo. O espaço conta com obras de cerca de 200 artistas, envolvendo mais de 8000 peças feitas de barro, madeira, tecido, areia, miolo de pão e outros, recebe aproximadamente 40 mil turistas ao ano e é considerado um dos museus de maior sucesso entre eles.

Em 2000, ano de falecimento do Jacques, o escritor José Saramago (ganhador do prêmio Nobel de literatura), faz a seguinte declaração: “Como é que um homem de outra cultura, um dia desembarca aqui e reúne essas obras tão fortes…o que se reuniu no Museu casa do Pontal é inimaginável”

Em 2010, o caso de amor começou a ser ameaçado. Quando se iniciou os aterramentos em torno do Museu, ocorreu primeiro grande alagamento, que coloca todo o acervo em risco e leva a direção a procurar entender o que realmente estava acontecendo. Descobriu-se que grandes empreendimentos imobiliários estavam previstos para a região, e o Museu Casa do Pontal ficaria ilhado em meio a mais de 100 prédios, tornando assim, impossível a permanência do museu no local de sua origem.


museu do pontal

Após inúmeras tentativas de acordo com a Prefeitura e empreiteiras por parte da direção, sem sucesso, o Museu Casa do Pontal não encontra alternativa a não ser aceitar a proposta de mudança de endereço. O museu passará a ocupar o bairro elitizado da Barra da Tijuca e o Recreio perde uma grande referência da sua própria cultura.

Aquele que teve seu nome registrado, por conta do bairro em que se encontra, região marcada pela cultura tradicional agrícola, quilombola, indígena, inclusive nos dias atuais, tem seu coração partido. Basta um andar pelo bairro para perceber como a paisagem se difere do restante da cidade (inclusive da Barra): quintais com cultivo agroecológico, ateliês de arte, bananais em meio à floresta até pouco tempo intocada e preservada pelos moradores da região.

Atualmente, as obras das futuras instalações já começaram, e mesmo em clima de mudança, o Museu Casa do Pontal continua a nos emocionar. No último dia 24 de julho, aconteceu uma festa tradicional, que reuniu inúmeros grupos folclóricos. Foi simplesmente “Maravilhoso”, uma mistura de lembrança, paixão, história e insegurança, em meio a tantas danças observadas pelas janelas dos novos vizinhos que nem apareceram para prestigiar a linda festa. Alegra-me saber que pude proporcionar aos meus filhos essa vivência, mas não sei o que meus filhos mostrarão aos meus netos.

Sei apenas que os sentimentos que levaram Jacques Van Beuque a preservar nossa cultura se assemelham ao meu e da maioria da população existente no local, porém difere totalmente dos planos do governo e das grandes construtoras. Segundo técnicos da prefeitura e Rio-Aguas, todas as construções que estão no mesmo nível do museu deverão sofrer os mesmos impactos, pois as novas construções seguirão os mesmos padrões urbanísticos regularizados pelo PEU, deixando aos moradores, apenas a insegurança de um futuro duvidoso.

E se o museu, que é referência internacional, com o maior acervo de arte popular do Brasil, foi tratado com tamanho desrespeito, o que acontecerá conosco?Seremos expulsos de nossas moradias e do bairro que tanto amamos e tentamos preservar pelos alagamentos e outras pressões? Ou iremos lutar pelo nosso Direito a Cidade?

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