RESISTÊNCIA E ANCESTRALIDADE: OS DEZ ANOS DA FEIRA DA ROÇA
- Silvia da Costa

- 29 de mar.
- 2 min de leitura
O largo de Vargem Grande tornou-se o coração de uma manifestação de força e memória no último dia 15 de março, quando a Feira da Roça celebrou uma década de existência. Longe de ser apenas um mercado de alimentos cultivados sem agrotóxicos e itens artesanais, a feira se consolidou como um território de resistência política e cultural. Como apontam as pesquisadoras Maria da Graça Costa e Sílvia Regina Baptista, “a feira é nosso quilombo urbano”, funcionando como um espaço de preservação de cosmopercepções de matriz africana e de salvaguarda contra a pressão da especulação imobiliária que ameaça as zonas rurais da cidade. Seus princípios fundamentais estão alicerçados na economia do axé e na agroecologia, em que o cultivo da terra é um ato de soberania alimentar e de manutenção de laços ancestrais que sobrevivem ao asfalto.
A comemoração foi marcada por um tom vigoroso, especialmente pela convergência com a 5a Marcha das Mulheres pelo Bem Viver. O protagonismo pertenceu às mulheres quilombolas, cujas mãos calejadas não apenas plantam o alimento, mas sustentam a estrutura de um projeto de sociedade alternativo. Elas, que ocupam a vanguarda na luta, reafirmaram que o corpo feminino é o primeiro território a ser defendido contra as lógicas de
exploração. A presença impositiva da marcha trouxe para o bairro a voz de quem produz a comida que cura e que alimenta, transformando o aniversário em um protesto vivo por dignidade, terra e justiça social.

A espiritualidade e a conexão com as raízes originárias também selaram o evento por meio da bênção do Matriarcado Ancestral da Aldeia Marakanã. Esse momento sagrado reforçou que a luta pela terra em Vargem Grande é indissociável da reverência ao planeta, do respeito entre as raças e da consciência de classes, unindo a diversidade dos desejos humanos em um só clamor. A moção de homenagem concedida pela vereadora Maíra do MST (PT) surge, portanto, não como um presente, mas como o reconhecimento institucional de uma batalha que é travada diariamente há uma década.
A Feira da Roça de Vargem Grande demonstra que a organização coletiva liderada por mulheres negras conscientes de seu papel histórico é capaz de transformar o solo em um campo de liberdade e de vida pulsante.






Comentários