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O VENTO QUE FAZ A CURVA NA CIDADE DE DEUS

Wellington França
há 7 horas
4 min de leitura

Uma crônica afetuosa sobre a primeira roda de memórias das idosas da Cidade de Deus, tecida entre o café da manhã e o resgate da história oral do território.



Sala quieta. Raios de sol cruzam as janelas e pousam nas poltronas floridas.


Sentadas em círculo, mulheres com idades no entorno dos sessenta, outras quase centenárias, recém-saídas da ginástica semanal e de um afetuoso café preparavam-se para dar início a algo maior: a primeira grande partilha de memórias da Cidade de Deus. A ONG, que há anos funciona como um porto seguro diurno para as idosas do território, parecia prender a respiração. A confraternização com o lanche aos poucos cede lugar a um silêncio grávido de expectativas. Aquela não era apenas mais uma terça-feira comum; era a manhã em que o passado pediria licença para ser dito em voz alta.


O silêncio, descortina-se pelo barulho metálico de um instrumento artesanal que parecia ter saído de um túnel do tempo. Nas mãos do animador da roda, reluzia um objeto de arte: a engenhoca feita de pedaço de cabo de vassoura cravado de pregos e tampas amassadas de garrafa de vidro, herança viva de uma antiga aula de Educação Artística na escola primária outrora Juliano Moreira, hoje, Dorcelina Gomes em homenagem à uma das suas mais antigas merendeiras, ganhou uma inédita função ali. Embora a oficina de percussão das idosas acontecesse em outro dia da semana, o ritmo já estava no ambiente. Assim, naquele momento, o instrumento simula um microfone. Quem o segurasse, passava a ter o direito sagrado da palavra e do tempo.


O mic improvisado chacoalhou as tampinhas uma última vez antes de pousar nas mãos da primeira idosa. Ao segurar o cabo de vassoura, os olhos dela pareciam enxergar através das janelas ensolaradas, buscando uma Cidade de Deus que não existe nos mapas de hoje. A voz começou mansa, trazendo de volta o tempo em que o asfalto era chão de terra batida e o entretenimento dependia da imaginação. Falou de um lugar onde as calçadas pertenciam ao pique-esconde, queimado, amarelinha e bolas de gude. telefones feitos de barbante e lata. Latas de sardinha emendadas, viram pequenos vagões de trem e latões se fazem de tambores nos carnavais de rua. O silêncio da sala se fez ainda mais terno quando ela resgatou as tardes dedicadas a caçar joaninhas e ao cair da noite, vagalumes. Seu relato engatilhou em outros presentes, grilos acolhidos em caixas de fósforos, captura de rãs e pesca de barrigudinhos no Rio Grande. Colheita das Taiobas como reforço na comida misturada aos espetinhos de tanajura. Os chás de ervas colhidas pela mãe às margens dos rios locais, erva cidreira e capim santo. Bastou a primeira lembrança para que o círculo de poltronas floridas ganhasse vida. As vozes começaram a se entrelaçar, uma completando a frase da outra, rindo juntas e costurando os retalhos daquele passado comum.


Cada vez que o microfone artesanal trocava de mãos, a sala parecia encolher o mundo e expandir o tempo. Vieram os “Chifrudos” alusão aos ônibus elétricos da CTC. O “Cata-mendigo” referente aos ônibus da Redentor que faziam as linhas circulares entre CDD e Freguesia.



O senhor, antigo trabalhador do mercado, Três Poderes relembrou quando as doações de legumes enchiam caldeirões para sopões comunitários. Ele que em outra ocasião desafiou a morte após ter sofrido um atentado. Sobreviveu para virar o jogo e se tornar uma referência viva no futebol local e profissional. O corpo que resistiu à violência, relata confiante: “agora também sou conhecido como O Zezé do CEACC!”


Logo depois, a rota da memória viajou milhares de quilômetros. A jovem senhora Lourdes, gestora da Casa de Santa Ana, nossa anfitriã, ela com nome de origem francesa que muito preza, contou que veio lá do sertão da Paraíba, “de onde o vento faz a curva”, na carroceria de um pau-de-arara, confessou que, naquela travessia poeirenta, jamais ousaria sonhar que um dia veria seus descendentes nascendo no frio da Noruega. A fome da viagem nordestina abriu espaço para a fome de saudade de outro presente, Seu Luiz Presidente da Casa Cultura CdD, que resgatou os cheiros e os sabores de uma Bahia e de um Nordeste que parece estarem sumidos do mapa - comidas típicas e temperos lentos que a tal pressa contemporânea, hoje ditada por algoritmos, já não sabe fazer.


A atmosfera na sala mudou de tom no primeiro sopro da última voz. "Eu não tive infância", disse a senhora, quebrando a leveza anterior com a crueza de uma verdade nua. Vinda da roça com uma família sem estudo, sua rotina de menina ignorou as brincadeiras; restava-lhe apenas trabalhar dia e noite. Lembrou-se de quando tentava estudar, mas o cansaço vencia e ela dormia sobre os livros na escola. Contou sobre os insultos, as dores e as discriminações que engoliu ao longo da jornada. Mas não havia autopiedade em seu tom, apenas o orgulho de quem, juntando centavo por centavo do suor de seu trabalho, conseguiu realizar o maior sonho de sua vida: comprar a sua própria casa, ali mesmo, na Cidade de Deus.


Sob os raios de sol daquela manhã de terça-feira, a sala mergulhou em um silêncio reverente. A Cidade de Deus, tantas vezes narrada pelo olhar da pressa e da violência das notícias, ali se refazia pela ótica do afeto, do triunfo e da diversidade. Aquelas pessoas não eram apenas sobreviventes. Enquanto o microfone artesanal descansava, ficava o eco da maior lição daquele dia: a história viva daquele território pulsa guardada no peito de quem transformou terra batida em lar, fincou alicerces onde o vento faz a curva e transformou suas cicatrizes em vitória.


Nota de Agradecimento e Patrimônio Afetivo:

Esta crônica não existiria sem a generosidade, os sorrisos e a partilha de memórias das idosas da Casa de Santa Ana na Cidade de Deus, cujas trajetórias de vida e relatos orais foram a matéria-prima e a verdadeira inspiração para este texto. A autoria literária é de Wellington França, mas a memória viva pertence ao território.

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