• Marcelo Sant’ Ana Lemos

UM PATRIMÔNIO A SER PRESERVADO QUE RESERVA UMA VISTA ESPETACULAR DA BAIXADA DE JACAREPAGUÁ

Atualizado: 22 de mar.

Neste mês as chuvas não deram descanso as populações de vários estados do Brasil, levando dor, sofrimento e prejuízo para milhares de famílias em Minas, Bahia, Pará, Tocantins e Goiás. Nossa solidariedade aos que foram desalojados, desabrigados e enlutados. Pedimos aos nossos leitores que ajudem a levar algum conforto através de doações, que podem ser feitas para entidades confiáveis, que põem a mão na massa, como a CUFA ou a Ação da Cidadania.


Um dos vídeos que mais foi veiculado pela mídia nesse fim de semana, foi o desmoronamento de algumas casas em Ouro Preto, causado pelo deslizamento de terra do Morro da Forca, que destruiu por completo o belíssimo Solar Baeta Neves, do século XIX, que já estava desocupado há dez anos, por conta da instabilidade da encosta. Em vez de fazerem obras de contenção, já apontada como urgente e necessária, em estudos geológicos, simplesmente deixaram o casario desmoronar!


Refletindo sobre isso o meu pensamento voou para a década de oitenta, do século passado, quando era professor de geografia do Colégio Estadual Senador Teotonio Vilela, que fica na Rua Barão, na Praça Seca. Eu junto com o professor de biologia e a professora de história propusemos um projeto multidisciplinar para estudar a baixada de Jacarepaguá, sobre vários olhares. Para isso levaríamos os alunos num trabalho de campo cujo objetivo era poder observar toda a baixada, com explicações dos professores sobre a região, a partir da ótica de cada disciplina, e com isso estimular a produção de trabalhos escolares sobre a região. Fizemos então uma prévia do trabalho, visitando o local escolhido para a atividade de campo: o Morro ou Pedra do Galo, com 170 metros de altura, onde fica a igreja de Nossa Senhora da Penna.


Era a primeira e única vez que subia naquele Morro e o impacto da vista e da própria igreja me impressionaram as retinas! Temos dali uma visão de 360º de toda a baixada de Jacarepaguá, podendo distinguir as diferentes áreas, facilitando a compreensão dos seus processos de ocupação, vemos também as diversas lagoas e os maciços da Pedra Branca e da Tijuca, a imensidão das praias na Barra da Tijuca e no Recreio, além do Oceano Atlântico. Em resumo: uma paisagem de grande beleza cênica, que inspirava diversas abordagens, como era o nosso objetivo com os alunos.


Uma grande surpresa foi visitar a igreja de Nossa Senhora da Penna. Ela é considerada a segunda construção religiosa de Jacarepaguá, erguida entre 1633 e 1642, como uma ermida (uma pequena construção rústica fora de povoados), para devoção dos fiéis. Existe uma lenda que justifica a sua construção: um pequeno escravizado perdera uma vaca do dono daquelas terras e estava apavorado com a surra prometi da pelo senhor caso não encontrasse aquela rês. No seu desespero pediu proteção à Virgem. Qual não foi a sua surpresa, quando olhou para o Morro do Galo, e viu Nossa Senhora apontando onde estava a vaca. O “milagre” teria acontecido no dia 8 de setembro de 1661 e foi presenciado pelo fazendeiro que, em reconhecimento, mandou construir uma ermida e alforriou o escravizado, que dizem foi o primeiro registro de alforria no Brasil Colônia. Assim reza a lenda!


Todo ano a irmandade de Nossa Senhora da Penna comemora no dia 8 de setembro, a festa máxima daquela igreja, enfeitando a igreja, montando barraquinhas no entorno, instalando brinquedos para crianças e realizando a missa do lado de fora.



A igreja só tem um sino, e dentro dela podemos encontrar seis belíssimos painéis azulejados portugueses, que retratam cenas da vida de Nossa Senhora. Além de uma série de ex-votos, contando as graças alcançadas por conta da devoção a santa, o que resulta numa grande quantidade de muletas, fotografias, tranças de cabelos, cartas, além de pernas, barrigas, braços e cabeças de cera de gente que foi curada.


Eu me lembro como me impactou as diversas pinturas de ex-votos do século XVIII, existente nas paredes laterais da igreja. São descrito diversos acontecimentos do cotidiano daquele sertão de Jacarepaguá, as dificuldades encontradas naquela época e os resultados que os fiéis atribuíam a intervenção divina. Haviam muitas romarias para aquele penedo, tanto que ao lado da igreja foi construída uma casa para recepção dos romeiros.


Em 1664, o Padre Manoel Araújo levantou uma edificação mais robusta no lugar da ermida, com paredes mais espessas, afortalezada, pois havia receio de ameaças de invasões de piratas ou povos indígenas. Uma casa de reza e de defesa dos cristãos da época. Em 1771 um grande terreno é acrescido ao patrimônio da igreja.


Um outro “milagre” ocorreu no ano de 1770, quando por conta de reformas na igreja, era necessário trazer água morro acima. Naquela época eram os escravizados que cuidavam do transporte de água, os “encanamentos” eram os seus braços e pernas, que em jornadas penosas abasteciam as casas nas cidades e no campo. Um escravizado mais velho, cansado de subir e descer 170 metros de ladeira apelou para Nossa Senhora da Penna e a água jorrou da pedra! Até poucos anos atrás ela corria na fonte denominada Água Milagrosa, cuja bica ainda se encontra lá.


Para chegar hoje a igreja as pessoas têm duas opções: subir a pé a ladeira de Nossa Senhora da Penna cujo calçamento é de “pé de moleque”, construído por escravizados, ou usar o plano inclinado, construído pela prefeitura, em 2014.


Vale a pena conhecer esse patrimônio histórico e cultural da nossa cidade e descortinar de uma vista maravilhosa de Jacarepaguá.


Para saber mais:

- ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro e. O Rio de Janeiro nas visitas pastorais de Monsenhor Pizarro: Inventário de Arte Sacra Fluminense. Rio de Janeiro: INEPAC, 2008.

- MIRANDA, G.I. Mac Dowell dos Passos Miranda. O Santuário Nacional de Nossa Senhora do Loreto. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural Edições Ltda.

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