• Marcelo Sant’ Ana Lemos

UM CASAMENTO DE INTERESSES: O CASO DE D. VITÓRIA DE SÁ E O GOVERNADOR DO PARAGUAI

Atualizado: 10 de jan.

Desde do final do século XVI a Baixada de Jacarepaguá estava nas mãos da família Sá. Os irmãos Gonçalo e Martim de Sá tiveram as suas sesmarias confirmadas por El Rei Felipe II (Felipe I de Portugal - o rei espanhol que unificara as coroas portuguesas e espanhola), em 26 de maio de 1597.


A família Sá preocupada em manter e ampliar o seu poder local e a influência perante a coroa espanhola aproveitou a passagem pelo Rio de Janeiro de D. Luiz Céspedes Garcia Xeriá, nomeado governador do Paraguai, em 1628, para promover uma aliança entre as duas famílias, estreitando os laços com uma família da nobreza espanhola, através do casamento de D. Vitória de Sá, filha de Gonçalo de Sá e D. Esperança, com Luiz Céspedes.

Martim de Sá era o governador da cidade na ocasião em que aportou aqui D. Luiz, em 4 de fevereiro de 1628. Apesar de nomeado pelo rei e coberto de honrarias o fidalgo espanhol, que fora nomeado para substituir de D. Manuel de Frias (Governador do Paraguai entre 1621-1625), não recebeu os meios financeiros e nem o transporte para fazer isso! Portanto quando chegou ao Rio de Janeiro, depois de enormes sofrimentos e peripécias, narradas no seu diário, tinha apenas o cargo, mas não tinha dinheiro, era um nobre pobre!! Para ele o casamento com membro da família mais rica e poderosa da cidade seria uma mão na roda e de quebra levou metade de Jacarepaguá de dote!!!


Para a família Sá representava mais prestígio político e também maior facilidade de acesso a porta de entrada das minas de prata de Potosí, na ocasião a maior produtora de prata do mundo. Além disso ele se demonstrou um aliado poderoso dos portugueses por fazer vistas grossas as bandeiras escravistas portuguesas às missões jesuíticas paraguaias do Guaíra, destruídas durante sua gestão, sendo os indígenas escravizados por paulistas e inclusive alguns foram enviados ao seu engenho no Camorim, em Jacarepaguá (talvez parte de um acordo secreto com os bandeirantes paulistas?).


O Engenho Camorim


Gonçalo de Sá plantava cana nas terras chamada “Camory” (do Tupi: kamuri – um peixe conhecido também como robalo-flecha) desde o século anterior. Ali ele montou um engenho de água, em 1622, as margens do Rio que chamava Pirapitinga ou Pirapitinguy (do Tupi: pira-peixe; pitinga/ piting – pintado; y – água ou rio – rio do peixe pintado) nos documentos antigos e atual Rio Camorim, que deságua na Lagoa de Jacarepaguá, antiga Lagoa de Camorim (hoje esse nome denomina apenas o canal que liga a Lagoa de Jacarepaguá a da Tijuca).


O engenho, na época do casamento, já tinha a moenda de açúcar, caldeiras de cobre para purgar o açúcar, aposentos de vivendas da família, tudo em pedra e cal, além de 40 escravizados entre indígenas da terra e gentios da Guiné que mantinham a produção da propriedade agrícola. Além disso ele construiu a capela dedicada a São Gonçalo, em 1625, que existe até hoje, sendo um dos mais antigos e bens conservados patrimônios da nossa cidade.

Capela de São Gonçalo, no Camorim. Foto: Marcelo Sant’ Ana Lemos

Será nestas condições que o engenho será passado como dote de casamento, por escritura feita por Gonçalo de Sá e D. Esperança, em 21 de março de 1628, para sua filha Vitória de Sá e o governador do Paraguai. Havia no contrato nupcial uma cláusula sobre o destino dos bens caso não houvesse herdeiros: cada um sairia do casamento com o que entrou, caso um morresse antes do outro ou houvesse separação do casal.


Logo após o casamento, em julho, Luiz Céspedes retoma sua jornada rumo ao Paraguai, sem levar a sua esposa, passando pela Capitania de São Vicente onde desembarca em Santos e ruma por terra para São Paulo, e dali por antigos peabirus (trilhas indígenas) e usando a rota do Rio Tietê, chega ao Rio Paraná e depois a Ciudad Real, onde toma posse como governador, em 18 de setembro de 1628.


Dona Vitória de Sá ficou com uma procuração do marido para gerir os bens do casal (o Engenho) enquanto ele viajava e se instalava no Paraguai. Dois anos depois ela vai ao encontro do marido e refaz a mesma rota de viagem do esposo para chegar ao Paraguai junto com sua mãe D. Esperança e o sobrinho Salvador Correia de Sá e Benevides. Era a primeira vez que o revia desde que se casaram. Ela fica no Paraguai e vê o seu marido ser destituído do cargo e preso por diversas acusações feitas pelos jesuítas espanhóis, entre elas a de omissão nas destruições das missões jesuíticas do Guaíra, no atual estado do Paraná, pelos paulistas, que dali levaram escravizados mais de 60 mil indígenas, só entre 1628/1630, e que venderam nas Capitanias de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia.


Uma parte dos indígenas guaranis escravizados vieram parar no Engenho Camorim, do governador do Paraguai, o que reforçava a suspeita sobre a cumplicidade dele (seria esse o seu pagamento por não ter reprimido os bandeirantes, que sabia que armavam uma bandeira composta de 900 mamelucos, 2000 indígenas flecheiros e 69 paulistas, quando passou por São Paulo, em 1628?).

Um fato que comprova isso é a passagem pelo Rio de Janeiro do padre jesuíta espanhol Simon Manceta, em viagem até a Espanha (e que anteriormente acompanhara, desde da região do Guaíra, onde foram arrasadas as missões, a triste caminhada dos indígenas que foram escravizados até a Capitania de São Vicente), encontrou e reconheceu 18 indígenas da cidade de Vila Rica, destruída pelos paulistas, como escravizados no Engenho do Camorim, de Dona Vitória, a qual interpelada pelo jesuíta disse que pertenciam ao seu marido e não a redução de Guaíra.


A presença indígena no Engenho foi bem documentada também na tese “Jacarepaguá, a planície dos muitos engenhos: uma arqueologia do sertão carioca, Rio de Janeiro, século XVII ao XIX” da arqueóloga Silvia Alves Peixoto, defendida em 2019, no Museu Nacional, que mostra o resultado das escavações na região de Camorim. Entre outros objetos encontrou a presença de muita cerâmica indígena, comprovando uma presença dos escravizados indígenas na construção e no funcionamento cotidiano daquela unidade produtiva.


Cerâmicas indígenas encontradas nas escavações do Engenho Camorim, por Silvia Peixoto. Foto: Silvia Peixoto. Essa imagem foi retirada da tese, e se encontra na página 211.

Com a morte de D. Luiz Céspedes Garcia Xéria, sua viúva volta a ser a única dona e administradora do Engenho, pois não teve filhos com o espanhol. Ficará com ele até a sua morte, em 1667, quando em testamento doa para a ordem dos beneditinos o engenho, a casa assobrada de vivência, os canaviais, as terras e matas ainda não cultivadas, além dos escravizados “do gentio da Guiné, crioulos e crioulas, mulatos e mulatas, mamelucos e mamelucas, e alguma gente da terra, todos do meu serviço, cobres e gados”, como aparece no testamento, que hoje está no Arquivo do Mosteiro do São Bento. A partir daí é outra história.


Para saber mais:


ARQUIVO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO. Livro 8 – Documentação sobre Jacarepaguá, Camorim, Vargem Grande, Vargem Pequena e Guaratiba. Período: 1627-1891, documento 8.2.1413-X – Testamento de Dona Vitoria de Sá (1667).


NAVARRO, Eduardo de Almeida. Tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global Editora, 2019.


PEIXOTO, Silvia Alves. “Jacarepaguá, a planície dos muitos engenhos: uma arqueologia do sertão carioca, Rio de Janeiro, século XVII ao XIX”. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro para obtenção do título de Doutor em Arqueologia. Rio de Janeiro, 2019.


RUDGE, Raul Telles. As sesmarias de Jacarepaguá. São Paulo: Livraria Kosmos Editora, 1983.

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