• Claudia Scott

TAPETE DE NUVENS

Atualizado: 21 de Out de 2021

Um mês antes eu voava.


Ela já estava acamada e velhinha, mas sempre rezava por mim quando sabia que eu ia voar. Dessa vez eu não estava sozinha e olhava pela janela do avião procurando enxergar o relevo lá embaixo. No entanto, as nuvens baixas atrapalhavam. Eis então que minha filha, com 4 aninhos fala bem alto: “Olha que lindo mãe! É um tapete de nuvens lá embaixo!”.

Dizem que Deus e os anjos falam através das crianças e, como num passe de mágica, as nuvens (que antes me atrapalhavam ver as paisagens lá embaixo) passaram a ser a coisa mais linda daquele voo. Eu dei um beijo em minha filha e ficamos coladinhas, cabeça com cabeça, olhando juntas para toda aquela beleza da janela do avião.

Um mês depois eu voava.


Dessa vez voltava sozinha de uma dessas viagens a trabalho na ponte aérea Rio-São Paulo. Ela já não estava mais aqui.

Saí de São Paulo em uma tarde meio nublada, cinza, nebulosa. Na subida, entre as nuvens, lembrei que, se ela ainda estivesse aqui teria rezado por mim. Fechei os olhos e, mesmo chacoalhando bastante em meio a turbulências, senti uma paz infinita dentro de mim. Então, eis que o Sol do fim de tarde bateu bem no meio do meu rosto.

Depois de passar pela barreira de nuvens cinza, o avião chegou lá no alto. Ao abrir os olhos observei a imensidão daquelas nuvens, que daquela altura, banhadas pela luz do fim da tarde, já ganhavam tons de dourado.

Naquele momento sorri lembrando que minha filha adoraria ver aquele imenso tapete de nuvens dourado. Pensei: “Quando chegar em casa vou mostrar essa foto pra ela.” No entanto, foi nesse mesmo momento que senti a presença daquela que sempre rezou por mim: minha avó. Não mais acamada, mas sim sorrindo e caminhando, suavemente, sobre aquele lindo tapete de nuvens dourado.

Um mês antes. Um mês depois. O tempo realmente prega peças na gente e permitiu que, num mesmo instante, eu pudesse sorrir (ao lembrar de palavras da minha filha) e chorar (ao sentir saudades da minha avó).

Num mesmo instante no tempo eu reverenciava de onde eu vim (ao lembrar da minha avó) e vibrava vida (ao pensar no sorriso da minha filha que me espera em casa).

O comandante anuncia: “Tripulação preparar para aterrissar.” Eu olho mais uma vez para o tapete de nuvens (antes que o avião mergulhasse nele) e me despeço dela. Agradecendo por todas as orações e rezas e por tudo o que ela fez por mim.

Ao chegar em casa minha filha abriu um sorriso e logo perguntou: “Mãe, teve tapete de nuvens?” Eu sorri, dei um longo abraço nela e respondi que sim.

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