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QUANDO O TERRITÓRIO ADOECE, O TRABALHO SENTE PRIMEIRO

Foto do escritor: Isabor Dória
Isabor Dória
10 de ago.
2 min de leitura

Escrevo esta reflexão como uma profissional de Recursos Humanos que, ao longo dos anos, aprendeu que os indicadores nunca falam apenas sobre as empresas. Eles revelam muito mais do que resultados organizacionais: mostram, também, os efeitos do território onde essas organizações estão inseridas.


Costumamos discutir os desafios da gestão de pessoas como se eles começassem e terminassem dentro das empresas. Falamos sobre liderança, clima organizacional, engajamento, retenção e desenvolvimento. Esses fatores são importantes, mas há uma dimensão que, muitas vezes, fica invisível: o contexto social que cerca o trabalho.


Não é possível compreender as relações de trabalho sem compreender o território.


Em Jacarepaguá, vivemos hoje um cenário marcado por disputas territoriais, pela presença de poderes paralelos e pela ausência do Estado em diversas áreas. Embora essa realidade seja frequentemente tratada apenas como uma questão de segurança pública, seus efeitos ultrapassam o campo policial e alcançam diretamente o mundo do trabalho.


No Rio de Janeiro, essa é uma particularidade que impacta empresas, trabalhadores e toda a dinâmica econômica local. A violência gera incertezas, interrompe expansões, dificulta deslocamentos, reduz investimentos e compromete a capacidade de geração de empregos. Não estamos falando apenas de números. Estamos falando de pessoas que deixam de acessar oportunidades, de trabalhadores que enfrentam o medo diariamente e de famílias que convivem com a instabilidade como parte da rotina.


Na prática do Recursos Humanos, esses impactos aparecem de diferentes formas: aumento do absenteísmo, atrasos provocados por operações policiais ou confrontos, dificuldades de recrutamento, maior rotatividade e insegurança emocional dos colaboradores. São indicadores que, muitas vezes, são interpretados como problemas exclusivamente internos, quando, na realidade, refletem questões estruturais do território.


Quando um bairro deixa de se desenvolver por causa da violência, não é apenas a economia que perde. O mercado de trabalho se enfraquece, as oportunidades diminuem e a população sente os efeitos muito antes de qualquer dado oficial confirmar essa realidade. Antes de se tornarem estatísticas, esses impactos já fazem parte da vida cotidiana de milhares de trabalhadores.


Como profissional de Recursos Humanos, acredito que olhar para o território também é uma forma de cuidar das pessoas. Afinal, as organizações não existem isoladas da sociedade. Elas fazem parte dela, são influenciadas por ela e inevitavelmente, carregam para dentro de seus ambientes as consequências das transformações sociais ao seu redor.


Talvez seja hora de ampliarmos o debate sobre gestão de pessoas. Porque, quando o território adoece, o trabalho também sente. E compreender essa relação é um passo importante para construir organizações mais conscientes e políticas públicas que dialoguem com a realidade de quem vive e trabalha nesses territórios.

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