top of page
  • Foto do escritorMarcelo Sant’ Ana Lemos

QUAL A ORIGEM DOS RITUAIS, DAS COMEMORAÇÕES E DOS ANIVERSÁRIOS?

Os rituais dos povos sambaquieiros cariocas e de Jacarepaguá.


Pintura rupestre mostrando uma dança

A pintura rupestre acima representa uma dança, que celebra um momento da vida dessa comunidade originária no interior do Brasil, há milênios atrás. Qual era o motivo da dança? O que celebravam, qual era o tema? Não sabemos e dificilmente teremos essa resposta, mas ela coloca para nós a questão da antiguidade das celebrações, dos rituais religiosos, das danças para comemorar uma boa caçada, uma vitória, para desejar uma boa colheita, para acalmar os espíritos da floresta ou os deuses, para afastar doenças e desastres naturais.


Era necessário explicar os fenômenos que ocorriam na natureza: raios, trovões, enchentes, secas, tsunamis, terremotos, vulcões, passagem de cometas, meteoros nos céus e meteoritos caídos na terra, avanço dos mares, sucessão dos dias e das noites, estações do ano, fases da lua, a morte natural das pessoas, dos animais, etc.


Dessa necessidade de compreensão surgiram as religiões, as crenças, o conceito de alma, os rituais religiosos, os mitos, as lendas, as danças, as celebrações, as oferendas, os ritos funerários e as comemorações de aniversário.


Ritos funerários e suas cerimônias na terra carioca

Os povos sambaquieiros cariocas (que viviam da pesca e coleta de moluscos e construíam sambaquis – montes formados por restos de conchas de mariscos), presentes também na primitiva Jacarepaguá, tinham seus próprios rituais de sepultamento, indicando uma crença sobre o fim da vida. Deveriam homenagear seus mortos, armando fogueiras, enterrando-os num posicionamento alinhado leste - oeste (nascente - poente) ou então sentado. Os diferentes rituais estavam relacionados a importância de cada morto para aquele grupo social. Enterravam juntos os adornos (de conchas) e as armas (de osso ou pontas de machados de pedra), além de oferendas alimentares (tartarugas, ostras, etc.).


Os tamoios, povos agricultores que conquistaram o território dos sambaquieiros, há mais de 2000 anos antes do presente, tinham outras cerimônias funerárias, que foram descritas e presenciadas por europeus, no século XVI: “(...) os seus companheiros, cercam-lhe o leito, os mais velhos em primeiro lugar, de acordo com a idade; ninguém diz palavra, somente todos olham atentamente o doente, derramando lágrimas continuas”. O pranto ritual era entoado somente pelas mulheres, principalmente as mais velhas.


Todos os vizinhos e parentes eram convidados a tomar parte nas manifestações de dor. Falecendo algum principal, o luto tornava-se de toda a aldeia, o seu maior amigo fazia um comovente discurso, batendo muitas vezes no peito e nas coxas, falando das principais façanhas do morto.


No caso dos Tamoios do Rio temos o relato que o elogio ao morto era feito pelas mulheres, que interrompiam seus lamentos com diálogos que enalteciam a valentia do morto, que tinha matado tantos inimigos, que tinha sido um bom caçador e ótimo pescador. Que era um grande matador de portugueses e maracajás (indígenas inimigos que viviam na Ilha do Governador).


Com o falecimento do ente querido suas mulheres cortavam o cabelo bem rente, depois de arrancar partes com choros e lamentos piedosos, que prosseguiam por quase seis meses. O luto pesado demorava de cinco a seis dias. Ficavam deitadas nas redes, ou de cócoras, abraçavam-se reciprocamente, com muitos gestos de tristeza e exclamando: “Chérémimota - rouére ymen” que poderia ser traduzido como: Ó, aquele que amei tanto!! Ao que os parentes respondiam, exclamando: “Ó, morreu nosso pai e amigo! Era homem de bem, tão valente na guerra! (...). Que cuidava tão bem dos campos e apanhava tanta caça e tanto peixe para o nosso sustento! Foi-se; não veremos mais, a não ser depois que morrermos, quando, então, iremos para a sua companhia, para região da qual nos falam os nossos pajés!”


Após cinco dias o defunto era posto em sua cova, que era aberto pelo parente mais próximo do falecido. Se o marido perdia a mulher, cabia-lhe o dever de transportar o corpo ao local escolhido para sepultamento. Thevet descreve esse momento: “ os selvagens curvam-no, dentro da própria rede onde falece, dando-lhe a forma de um bloco ou saco, à semelhança da criança no ventre materno; depois, assim envolvido, ligado e cingido com cordas de algodão, metem-no em um grande vaso de barro, cobrindo-o com a gamela onde o defunto costumava lavar-se, receando segundo dizem, que o morto ressuscite, se não está vem amarrado, temor aliás muito grande, pois creem que já aconteceu com seus avós”. Colocam o corpo numa cova, da altura de um homem, ao lado fazem fogueira e farinha, para evitar espíritos malignos, e caso tenha fome teria comida e não espantaria os vivos. Havia uma preocupação em renovar os alimentos e bebidas para o morto, até que o corpo ficasse completamente em ossos. Esse costume era para que Anhangá (um espírito maligno) não fosse desenterrar o morto para devorá-lo por não encontrar comida próxima. Outro costume era que o defunto também não tivesse contato direto com o solo, por isso a urna ou rede.


Havia outros aspectos dessa cerimônia, mas o que queremos salientar era que os habitantes desse território, ao longo do tempo, tiveram diversas cerimônias e rituais para celebrar os seus mortos.


Após a invasão europeia com escravização e subordinação de parcela dos povos originários aqui existentes, novos ritos funerários são introduzidos e começaram a imperar, em sua maioria ligados a tradição católica europeia, até então estranhos a essas paragens, com repressão sistemática de outros ritos que pertenciam aos povos originários e as tradições judaicas, ciganas e de povos cujas pessoas foram escravizadas na África e trazidos à força para cá.


Outras festas e cerimônias também ocorriam como as do nascimento, batismo, casamento e aniversário das pessoas.


Nascimentos e suas cerimônias


Assim que a mulher tamoia sentia as dores do parto ela “sentava-se em uma tábua que, embora presa aos barrotes do teto, ficava apoiada no chão” e assim ela dava à luz, acompanhada pelas demais mulheres, que acorriam a assisti-la, sem participar dos trabalhos diretamente. “Depois, quando nasce a criança, à qual dão o nome de Congnomi-meri, o pai, a quem chamam de Cherouy, se é vivo levanta-a do chão. Sendo macho a criança, cabe ao pai cortar o umbigo com os dentes; se é fêmea, cumpre à mãe fazer esse serviço(...)”. Logo após o nascimento o bebê era banhado no rio, cabendo ao seu pai achatar o nariz com o polegar; untando em seguida com óleo e pintando-o com urucum e jenipapo. Após isso, prossegue Thevet, “os índios põem a criança numa redezinha, pendurada entre dois esteios de madeira, fazendo-lhe, então, um Itamongáve, isto é, uma cerimônia de bom presságio, que consiste em unhas de onça ou garras de certa ave do tamanho da águia (...). Incluem os selvagens, também na oferenda, as penas da cauda e das asas dessa ave, assim como um arcozinho e algumas flechas, sendo tudo isso preso à mencionada rede(...). Acreditam que, com tal cerimônia, a criança, quando crescida, torna-se-á mais destra nas armas (...). Em se tratando, porém de criança do sexo feminino, os índios colocam em seu colo dentes de um animal chamado Capiigouare (capivara) – palavra que significa comedor de ervas – com objetivo, conforme pensam, de tornar os dentes mais fortes e mais apropriados aos alimentos”.


Em relação ao procedimento para colocar nome nas crianças tamoias, Hans Staden, aventureiro alemão, que foi prisioneiro deles em Angra dos Reis, na década de 1550, descreveu: “O marido reuniu os vizinhos mais chegados a sua choça e com eles conferenciou sobre que nome convinha dar a criança, o qual significasse denodo e impusesse medo”. No caso específico acabou escolhendo o nome de um dos seus antepassados, Koema, que significa “manhã”. O frei francês Claude d’Abbeville escreveu que havia uma crença entre os tupinambás, na reencarnação da alma dos avós, nos que recebessem seus nomes. Os nomes dados as crianças eram inspirados nos animais, vegetais, minerais, alimentos ou objetos manufaturados. Ao longo da vida poderiam os guerreiros adquirir os nomes dos inimigos mortos por ele também.


A utilização do batismo católico acabou se impondo nas regiões litorâneas do Brasil Colônia, nos séculos seguintes, concomitante as outras práticas de rituais de nascimento em regiões ainda não conquistadas e também em alguns quilombos, de longa duração. O sincretismo religioso acabou sendo uma resultante da resistência das religiões de matrizes africanas, que para manter viva a sua crença associaram santos católicos aos orixás, podendo assim manter seus cultos.


No início século XVIII, em Jacarepaguá, muitos dos chamados cristão - novos (judeus que se converteram a força, em Portugal, no século XVI, e seus descendentes), foram presos e condenados pela Santa Inquisição, por terem sido acusados de participar da festa de casamento, ocorrida em Irajá, onde foram praticados ritos “judaizantes” (costumes ligados a religião judaica). A denúncia feita em Portugal, por Catarina Soares Brandoa, uma portuguesa cristã-velha que participou da festa, acarretou aos denunciados a perda de engenhos de açúcar e outros bens materiais. Dadas às dificuldades da realização das cerimônias judaicas na Colônia, pela perseguição religiosa sistemática, o “batismo judaico”, isto é, a cerimônia de circuncisão dos meninos, chamada de Brit Milá, que representava o sinal de conexão eterna com o povo judeu, não era realizado, pelas dificuldades de manter em segredo a circuncisão.


As comemorações de aniversário


O costume de celebrar os aniversários de nascimentos começou por volta de 3.000 anos A.C. (antes do nascimento de Cristo no calendário ocidental), no antigo Egito, mas eram restritos aos faraós e deuses. Os gregos também só comemoravam as datas de aniversário das divindades.


Na Roma Antiga, os imperadores, suas famílias e os senadores comemoravam seus nascimentos, mas o resto da população não. No meio cristão não havia comemoração de aniversários, por ser considerada uma prática pagã, somente a morte e ressureição de Cristo era celebrada. Somente no século IV, com o processo de oficialização do cristianismo como a única religião oficial, resolvem comemorar o nascimento de Cristo, para isso precisavam fixar uma data que não existia, o fato de ter sido escolhido o dia 25 de dezembro, está relacionada a substituir a festa pagã da Saturnália, que ocorria de entre os dias 17 e 25 de dezembro, para celebrar o solstício de inverno (na Europa), o renascimento do ano, em homenagem ao deus Saturno, o principal do Império Romano, pela festa do nascimento de Cristo, numa disputa de narrativas religiosas.


A origem da palavra “aniversário” vem do latim, e é a junção das palavras “annus” (ano) e “vertere” (voltar), isto é, aquilo que volta todo ano.

Por falar em aniversários e aniversariantes quem faz 18 anos é o nosso Jornal Abaixo-Assinado de Jacarepaguá - JAAJ!! Vida longa para nosso periódico!!!

130 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Komentáře


bottom of page