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PANDEMIA ACIRRA DESIGUALDADE DE GÊNEROS NO MERCADO DE TRABALHO

A pandemia escancarou as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho.  Enquanto os homens puderam trabalhar tranquilamente em home office, as mulheres tiveram que se desdobrar para dar conta do desafio de trabalhar em casa e cuidar dos filhos, que também estavam em casa devido ao fechamento das escolas.  

Vera*, 32, administradora, pensou ter resolvido o problema ao propor para sua empregada  doméstica Josefa*, 27, também cuidar do seu filho de 2,5 anos. Com o acúmulo de tarefas e sem  habilidade para ser babá, Josefa não deu conta do recado: o menino foi parar cinco vezes na  emergência pediátrica, sendo uma delas por queimadura em ferro de passar roupa, que a  empregada esqueceu ligado. Pior ainda, a criança, sem convívio com os coleguinhas nem com  os pais, que passavam o dia trabalhando e não conseguiam lhe dar atenção, não desenvolveu a habilidade da fala.

Juliana*, 45, auxiliar administrativa, pediu ao chefe para continuar trabalhando no escritório,  mesmo com os outros colegas estando em home office. Morando com um filho temporão de  3,5 anos e um neto de 8 meses, ela simplesmente não consegue trabalhar com as crianças em casa, exigindo sua atenção o tempo todo. Mesmo sendo portadora de asma, prefere se  submeter ao risco de pegar metrô todos os dias para conseguir executar suas tarefas diárias no  trabalho.

Valéria*, 39, engenheira, teve mais sorte. Mãe de duas meninas de 5 e 7 anos, ela negociou com  a empresa para ficar três dias em home office. Acordou com a faxineira Kelly* para cuidar das  crianças nos dois dias em que fazia faxina. A combinação deu certo, apesar da dificuldade de  Kelly para conseguir acessar as aulas on line da escola das meninas, devido à sua falta de  conhecimento em informática. Valéria teve sorte também por seu chefe ser muito  compreensivo, permitindo que ela desse atenção às filhas, mesmo quando estava em vídeo  conferência. Ele próprio conversava com as meninas e acabou conquistando a sua amizade.  Tanto que, após um ano na empresa, quando Valéria saiu para um emprego melhor, a filha mais  nova chorou porque não ia mais conversar com o antigo chefe da mãe. Fez até um desenho  delas em casa com a mãe, conversando com ele por vídeo chamada.  

A situação já era desigual antes mesmo da pandemia. Segundo dados do Instituto Brasileiro de  Geografia e Estatística – IBGE, em 2019, as mulheres dedicaram aos cuidados de pessoas ou  afazeres domésticos quase o dobro do tempo que os homens: 21,4 horas contra 11 horas  semanais. As mulheres não só trabalham mais, com a dupla jornada, como percebem  remuneração menor. Em 2019, as mulheres receberam 77,7% do rendimento dos homens.  Enquanto o rendimento médio mensal dos homens era de R$ 2.555, o das mulheres era de R$  1.985. A desigualdade é ainda maior nas ocupações com maiores rendimentos. Nos grupos de  Diretores e gerentes, e Profissionais das ciências e intelectuais, as mulheres receberam,  respectivamente, 61,9% e 63,6% do rendimento dos homens. O IBGE compilou essas  informações de suas pesquisas e de fontes externas para elaborar a segunda edição das  “Estatísticas de gênero – indicadores sociais das mulheres no Brasil”, que analisa as condições  de vida das brasileiras a partir de um conjunto de indicadores proposto pelas Nações Unidas.  

*Nomes fictícios usados a pedido das entrevistadas para proteger sua privacidade.

Escrito por Clea Gomes

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