• Val Costa

OS CARVOEIROS DO MACIÇO DA PEDRA BRANCA

Atualizado: 6 de Set de 2021

O uso do carvão vegetal, resultado da combustão da madeira, possibilitou diversas vantagens para o ser humano: aquecer-se do frio, cozinhar alimentos, espantar animais selvagens e fundir metais. O fabrico do carvão foi fundamental para a sobrevivência de várias sociedades e também representou uma atividade econômica viável para milhares de ex-escravos que viviam no Rio de Janeiro no final do século XIX e início do XX. Eles ficaram conhecidos como “carvoeiros”.


Lamentavelmente, embora tenham exercido uma atividade tão significativa no contexto socioeconômico da nossa cidade, os carvoeiros foram esquecidos e passaram por um longo período de invisibilidade social. Resgatar essa História tem sido uma missão para o pesquisador Rogério Ribeiro de Oliveira, professor do Departamento de Geografia da PUC-Rio. Oliveira já catalogou cerca de 1.280 carvoarias feitas nos maciços da Pedra Branca e da Tijuca. O carvão tinha um papel fundamental como insumo energético na sociedade do Rio de Janeiro do século XIX. Era usado nas indústrias têxteis e vidreiras, no abastecimento de locomotivas e na fabricação de enxadas, foices, machados, ferraduras, dobradiças, ponteiros e talhadeiras. Podemos afirmar, sem nenhum exagero, que a matriz energética da cidade nessa época era o carvão vegetal.


A região do Maciço da Pedra Branca teve, entre 1870 e 1920, a maior concentração de carvoeiros da cidade do Rio de Janeiro. O naturalista Armando Magalhães Corrêa (1889-1944) apresentou esses personagens nos seus desenhos a bico-de-pena feitos no livro “O Sertão Carioca”, obra que retratou a Baixada de Jacarepaguá através de uma série de artigos publicados no jornal carioca “O Correio da Manhã”.


A Lei Imperial n.º 3.353, popularmente conhecida como Lei Áurea, extinguiu oficialmente a escravidão no Brasil e gerou uma massa de desempregados pobres com pouca qualificação profissional. Essa população viu na fabricação do carvão vegetal uma fonte de sobrevivência. Muitos desses carvoeiros também eram quilombolas que vivam na região. No século XVIII, a Baixada de Jacarepaguá era conhecida como “Planície dos Onze Engenhos”, com numerosos indivíduos cativos trabalhando nessas unidades produtivas. Atualmente, o Parque Estadual da Pedra Branca possui duas comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares: a do Camorim e a Cafundá Astrogilda.


Hoje, praticamente não existem mais vestígios dessas antigas carvoarias, já que as áreas onde elas estavam se transformaram em Unidades de Conservação e foram retomadas pela Mata Atlântica, que voltou graças à eficiente sucessão ecológica ocorrida após o desmatamento. Os carvoeiros tiveram um ínfimo retorno econômico, enquanto muitos lucraram com o trabalho deles. Resgatar essas memórias é fundamental para a (re)construção dessas identidades locais.


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