• Jornal Abaixo Assinado

O Marangá Vermelho


Escrevendo sobre a História de Jacarepaguá e do Rio de Janeiro

O Marangá Vermelho

por Marcos André*

A Grande Guerra une os povos, e sobre a verdejante floresta de YACARÉ-UPÁ-GUÁ corre um brado: Marãngà Marãnga. Dentro da grande baía da Guanabara inúmeros ataques, nas reentrâncias, em todos os caminhos e no seu recôncavo, um guerreiro ou um grupo Tamoio pronto a combater. Em Takûrusutyba, o grande líder morubixaba-uasú Abati Poçanga preparava seus melhores guerreiros para o embate contra os perós (portugueses), aliados dos temiminós. Os tupinambás, amigos dos franceses, apoiavam a feitoria de Villegagnon, a  ilha França Antártica ou Henry Ville. Nos anos posteriores a 1565, a grande taba Takûrusutyba voltaria olhares além do estreito vale do Marangá; as tropas dos portugueses lideradas por Estácio de Sá, Fernão de Sá, Mem de Sá e ARARYBOÎA (líderes dos maracajás) enfrentaram os tamoios em vários pontos do litoral.

A base de apoio dos franceses, a ilha cujo nome foi perpetuado, era a feitoria de Cabo Frio, apoiada pelo grande chefe de Angra dos Reis, Kunhambeba. Os fortes são hoje grandiosas relíquias da arquitetura quinhentista; marcos deste processo de lutas e ocupação das terras. As primitivas paliçadas foram sendo substituídas gradativamente. Logo depois da fundação da cidade por Estácio de Sá, ao sopé do morro Cara de Cão, as 18 famílias povoadoras receberam suas cartas de concessão de sesmarias e comodonatárias desses novos chãos. A futura urbe é retalhada, o medo ainda era premente. Depois de fortificar alguns pontos estratégicos, Estácio de Sá e Salvador Correia de Sá (o velho) sofreram inúmeras retaliações pelos tamoios, que correram a costa, desde o Espírito Santo ao norte, até o litoral de são Vicente, em São Paulo, ao sul, e pelos “peabirus” caminhos nas matas começaram “salteando” as feitorias lusitanas — saltear era efetuar ataques de surpresas para roubar ou matar seus inimigos, liderados por Îabebyra-Asyka, Kunhambeba e Abati Poçanga, este uma das lideranças na guerra e um dos líderes de Takûarusutyba. Valentes guerreiros formaram um intrínseco congraçamento dos povos da floresta, a confederação dos Tamoios ou a grande união das TABAS — mais de 80 aldeias somente na capital do Rio de Janeiro e cercanias do recôncavo guanabariano, e todas elas lutaram bravamente.

Em contrapartida, a Coroa portuguesa apoiou os padres jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega. Estes soldados de toga, porém, almejavam amenizar os ânimos com os tamoios promovendo a paz e recorrendo à conversão. Com uma fluência prodigiosa no tupi-guarani, a catequese era uma forma clara de dominação, e eles foram vitoriosos em muitas aldeias, ficando livres dos franceses. A guerra prosseguiu, porém a confederação dos TAMOIOS enfrentou outro inimigo, e este era letal e invisível: as viroses que espalhavam-se pelas aldeias; morte e dor — muitas tabas foram queimadas arrasadas e abandonadas, e estas seriam conhecidas como taperas —, corpos eram chorados em canto de dor e lamento a algumas léguas da antiga taba de Yacaré-Upá-Guá. A grande batalha ocorria dentro da baía da Guanabara. A grande guerra foi perdida e os franceses expulsos, e a última seta dos tamoios foi certeira, ferindo o rosto de Estácio de Sá que, dias depois, faleceu, assim como vários chefes da confederação. O grande líder Abati Poçanga dorme nos braços da eternidade em torno da velha taba tupinambá entre rios e o grande mar Yacaré-Upá-Guá, Takûrusutyba, até o vale do Marãnga.

*Pesquisador

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