• Luiz Claudio Silva

O LADO OBSCURO DAS OLIMPÍADAS

Atualizado: 11 de set. de 2021

Começo esse texto lembrando a “Carta Olímpica”, escrita pelo barão de Coubertin, em 1899, portanto, há 122 anos. Vou relembrar um pouco o que o ele quis exatamente dizer quando resolveu escrever essa carta com relação às Olimpíadas, cujo propósito era reafirmar os princípios fundamentais e os valores essenciais do olimpismo.


Em sua introdução, a Carta Olímpica define seus princípios: “O Olimpismo é uma filosofia de vida que exalta e combina num conjunto harmônico a qualidades do corpo, a vontade e o espírito. Ao associar o esporte com a cultura e a educação, o Olimpismo se propõe a criar um estilo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo e no respeito pelos princípios éticos universais. O objetivo do Olimpismo é colocar sempre o esporte a serviço do desenvolvimento harmônico do homem com o fim de favorecer o estabelecimento de uma sociedade pacífica e comprometida com a manutenção da dignidade humana”. (https://www.olimpiadatododia.com.br/curiosidades-olimpicas/244928-carta-olimpica/)

Todos sabem muito bem qual é o objetivo de qualquer esporte, além do entretenimento social e do lazer, entre muitos outros benefícios que são alcançados. E são inúmeros os estudos e pesquisas em torno desse tema, sempre direcionados para algo bom e positivo. Muitos são os médicos que, por meio de pesquisas, orientam seus pacientes para que se exercitem e pratiquem esporte, respeitando sempre sua idade, saúde e as condições físicas, sendo de grande importância, “para os que têm condições”, sempre ter um acompanhamento com orientações de um profissional da saúde e de educação física.


Esses megaeventos são realizados em países, sem consultas públicas, e decididos quase sempre pelos chefes de Estados e pelos organizadores, não respeitando os cidadãos do país-sede.


Infelizmente, a ganância, seguida da corrupção, e os responsáveis envolvidos, que visam somente poder, status e enriquecimento ilícito, com trocas de favores em alguns casos, participam de megaeventos, como as Olimpíadas, e mudam tudo, embora devessem focar na essência da carta escrita pelo barão de Coubertin. Falar do tal legado social que deveria de fato ser uma mudança positiva deixada para nações que são sede desse tipo de espetáculo, principalmente para as classes mais carentes, por meio dos recursos bilionários gastos, chega a ser uma piada, pois o que fica na verdade são obras malfeitas, enormes despesas, rombos nos cofres públicos e muitas promessas que não são cumpridas e nunca o serão.


Um exemplo disso ocorreu no Rio de Janeiro, quando foi prometido que o Parque dos Atletas seria um legado deixado para a cidade após os Jogos Olímpicos de 2016, e que ao término do evento deu lugar ao Rock In Rio. A partir de então, o espaço ficou abandonado. Houve ainda a promessa, não cumprida, de que uma das arenas olímpicas seria transformada em escolas públicas, e sabemos muito bem como elas estão atualmente: também abandonadas. Poderia listar aqui grandes estragos causados na vida das pessoas pobres, negras, de favelas e de periferias por onde passa esse evento olímpico.



Muitos são os “chefes de Estados responsáveis e comprometidos de verdade com seu povo”, que não têm permitido que seus respectivos países sejam sede desses grandes eventos, tamanho é o prejuízo deixado por eles, pois na verdade favorecem apenas a um pequeno grupo que se aproveita deles para enriquecimento próprio. Geralmente, as Olimpíadas, por onde passam, removem famílias pobres, é o espetáculo sendo usado pelo sistema capitalista e seus representantes políticos e empresários para a prática da getrificação e especulação imobiliária. É o rico ficando mais rico e o pobre mais pobre.


Nas últimas três edições das Olimpíadas — Londres, em 2012, Rio de Janeiro, em 2016, e Tóquio, em 2020 — famílias pobres foram removidas, sendo que em Tóquio foram cerca de 300 pessoas do conjunto Kasumigaoka. E o mais triste nessas remoções nesse país “é que os idosos foram removidos duas vezes”, em 1964, nas Olimpíadas de Tóquio e, agora, de novo, em 2020, na mesma cidade. Diante desses fatos, percebemos que países que têm essa prática de remover famílias pobres aceitam sediar o evento com essa finalidade, promovendo a getrificação.


Japão corre contra o tempo para tentar controlar pandemia antes dos Jogos Olímpicos “A vacinação anda em ritmo lento. A queda na média de contágios também. Medidas restritivas como redução no horário de funcionamento de bares e restaurantes e suspensão de atividades de entretenimento não conseguiram reduzir as infecções a níveis mais seguros ou evitar a chegada de variantes do vírus ao país.” “Associações e sindicatos médicos do Japão pedem regras mais duras ou o cancelamento dos Jogos. Se não, pelo menos, a proibição de torcedores nas arenas esportivas. A organização do evento vai esperar pelo fim do estado de emergência para anunciar se haverá ou não espectadores.” “G1- Por Jornal Nacional/28/05/2021-22h52”

O governo japonês, nesse momento, em que seu país se encontra longe de controlar a situação pandêmica da Convid-19, permanecendo com os hospitais cheios e com os números de infectados aumentando, demonstra um grande desrespeito a sua população, priorizando os interesses econômicos ao invés de vidas.


Segundo o Comitê da Copa e das Olimpíadas, durante os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, foram mais de 22 mil famílias pobres removidas, ou seja, mais de 77 mil pessoas. Apenas na Comunidade da Vila Autódromo, situada ao lado do Parque Olímpico, foram mais de 650 famílias, de forma truculenta e covarde.


Entre 2009 e 2015 mais de 22 mil famílias foram despejadas no Rio de Janeiro, o que já é considerado o período histórico com o maior número de remoções na cidade. Segundo o Comitê Popular da Copa e da Olimpíadas, este processo serviu para beneficiar investimento imobiliários e turísticos, alimentando um processo conhecido por especulação imobiliária e getrificação. “Leia mais em: https://guiadoestudante.abril.com.br/blog/ atualidades-vestibular/olimpiadas-remocao-de-familias-no-rio-pode-ser-tema-de-vestibular/”

Famílias carentes não precisam de um evento dessa natureza passeando por seus países como pretexto, ou com desculpas esfarrapadas, para removê-las e destruir suas histórias de vida. Está mais do que na hora das Olimpíadas serem realizada em arenas e estruturas fixas, “em um único país”, economicamente sustentável. E que a cada quatro anos todos os atletas, delegações dos outros países e torcedores se desloquem para esse único país, pois esse evento não foi criado com o objetivo de passear pelo mundo, de quatro em quatro anos, para provocar óbitos, remover famílias, destruir histórias de vida, deixando vítimas fatais ou cidadãos com sérias sequelas de saúde, entre elas a depressão e problemas psicológicos, além de prejuízos em cidades por onde passa.


O corpo do barão de Coubertin deve se mexer no túmulo a cada Olimpíada.

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