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O dia em que a loucura virou caso de polícia e das Forças Armadas

IHBAJA

INSTITUTO HISTÓRICO DA BAIXADA DE JACAREPAGUÁ

O dia em que a loucura virou caso de polícia e das Forças Armadas

*Por Janis Cassília

Colônia Juliano Moreira. Carros patrulhas da Polícia Federal e um Urutu do Exército chegam. Um grupo de servidores, médicos, líderes sindicais, familiares e internos se reúnem em manifestação contra a posse do interventor federal na direção da instituição.  Câmeras de TV registram o momento. Os repórteres entrevistam o assistente do ministro da Saúde, que responde: “que aparato policial?”. A repórter afirma “15 homens da polícia federal!”. “Pode até aparecer mais”, foi a resposta obtida.

Em 24 de maio de 1988, o movimento pela reforma psiquiátrica ganhou força na Colônia, quando o ministro da Saúde decidiu intervir na direção das instituições psiquiátricas federais. O movimento denunciava as más condições das instalações psiquiátricas e as formas desumanas as quais estavam sujeitos doentes e funcionários. Porém o governo, que tinha acabado de sair de um período de ditadura e repressão, via neste movimento um indício de desordem que precisava ser controlada.

O ano de 1988 foi conturbado no plano político e na Saúde. Uma greve geral dos funcionários da Saúde federal levou 15 mil servidores a paralisarem suas atividades por 15 dias, inclusive na Colônia. Além disso, acusações de desvio e corrupção dos diretores da Colônia e do Hospital Pinel, e reportagens que “denunciavam” que o tratamento sub-humano continuava a existir na Juliano Moreira, o que a tornou alvo da segunda intervenção federal. O diretor foi afastado e um interventor escolhido para ocupar a direção da instituição.

Não foi à toa que o Ministério da Saúde destacou equipes da Polícia Federal e da Polícia Militar. Além de um carro de combate e o delegado do Dops, que também compareceram. Ainda que a redemocratização estivesse acontecendo, velhas táticas de intimidação foram utilizadas e escancaradas na imprensa. Os manifestantes não cederam e resistiram pacificamente. Derrotado, o Ministério da Saúde postergou a posse do interventor. No fim, teve início o processo de transferência da Colônia para o governo estadual. E a presença do carro de combate blindado, diante de tão pacífico mas decidido grupo de manifestantes, levou as Forças Armadas a explicar que tudo não passou de uma “infeliz coincidência”.

Imagens estão registradas em filme – Acesso em https://www.youtube.com/watch?v=vjfahlwn-n4

Manifestantes contra a intervenção federal na porta do Bloco da Administração da Colônia em maio de 1988. Eram médicos, funcionários, líderes sindicais, pacientes e familiares fizeram uma manifestação pacífica. Imagem de reportagem da TV Globo. Retirado do documentário sobre a Colônia Juliano Moreira, RJ – 80 anos. 

*Professora e pesquisadora do IHBAJA

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