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O campesinato negro nas fazendas dos beneditinos na  Baixada de Jacarepaguá do século XIX

Família de pescadores na Barra da Tijuca


*Texto do Pesquisador Renato Dória –

Um fato extremamente relevante a respeito das terras dos Beneditinos em Jacarepaguá, em fins do século XIX, que atualmente correspondem aos bairros de Camorim, Vargem Pequena e Vargem Grande, é que havia, pelo menos, cerca de 20 lotes agricultáveis ocupados e trabalhados por negros escravizados num regime de “economia autônoma”. Além disso, muitos dos ex-cativos que habitavam as terras dos religiosos puderam, por conta própria, comprar sua alforria. O que estas informações significam, afinal, para aquele período?

Em primeiro lugar, devemos lembrar que a sociedade carioca do século XIX permitia por lei a escravização de negros e isto tinha um peso considerável na organização das hierarquias sociais, determinadas por critérios étnico-raciais. Na prática isto correspondia a uma posição social vantajosa aos indivíduos brancos em relação à negros e mestiços, mesmo havendo níveis semelhantes de riqueza ou de pobreza.

Em segundo lugar, considerando essa estrutura social excludente e racista da sociedade carioca do século XIX, a situação não era igualmente favorável em relação ao acesso à terra para negros e mestiços. No entanto, os dados acima, em relação às fazendas dos Beneditinos em Jacarepaguá, apontam para um fenômeno bastante estudado pelos historiadores pelo menos desde a década de 1970 e igualmente negligenciado nos relatos sobre história de Jacarepaguá: a existência de um campesinato negro.

Sabe-se que era muito comum no século XIX os beneditinos concederem lotes de terra a homens negros e mulheres negras escravizados que decidissem se casar. Inclusive, esta prática era estimulada pelos religiosos. Por outro lado, é muito conhecida, também, a prática de fazendeiros do mesmo período, relatarem que a melhor forma de evitar as revoltas de negros escravizados nas fazendas de café era cedendo um lote de terras para que eles mesmos pudessem, a partir do próprio trabalho, obter o seu sustento.

Além disso, deve-se considerar, também, a existência dos quilombos. Estes, devido aos sucessivos embates contra as forças policias do Império, possuíam uma dinâmica de surgimento e deslocamento que foi responsável, em parte, pelo movimento de interiorização do espaço ocupado pela cidade. Os quilombos ocupavam áreas devolutas ou “desabitadas, entre os sítios próximos à área central ou aquelas localizadas nas freguesias rurais”. Mas, preferencialmente, os negros fugidos do cativeiro formavam os quilombos em áreas não aproveitadas pelas fazendas, como os charcos e as encostas de morros com densas coberturas florestais. Em Jacarepaguá, por exemplo, há registros de quilombos formados nas encostas dos morros e florestas por volta da década de 1880.

Estes exemplos redimensionam ainda mais a dinâmica de ocupação territorial e as possibilidades de acesso à terra em Jacarepaguá por parte de populações marginalizadas durante o século XIX: trabalhadores negros e trabalhadoras negras livres e pobres, escravizados ou ex-escravizados (libertos e alforriados) e quilombolas. Estes grupos contribuíram para formar um verdadeiro campesinato negro dentro do conjunto da população rural carioca daquele período. E na baixada de Jacarepaguá não foi diferente, conforme os dados acima.

Vê-se, portanto, que ao longo das décadas finais do século XIX o monopólio da terra pela grande propriedade senhorial e escravista não era, de forma alguma, absoluto na região de Jacarepaguá. Ao contrário, havia mecanismos que garantiam a possibilidade de homens negros e mulheres negras superarem as condições sociais de exclusão que eram colocados no contexto de uma sociedade rural e escravista.

É possível constatar os desdentes deste campesinato negro que se formou ao longo do século XIX em diversas localidades da Baixada de Jacarepaguá nas primeiras décadas do século XX, então conhecida por Sertão carioca: nos núcleos de pescadores e lavradores que foram alvos de violentos despejos por inúmeros pretensos proprietários, como o Banco de Credito Móvel e o italiano da Barra, Pascoal Mário.

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