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NÓS SOMOS JOVENS! JOVENS!

  • Foto do escritor: Pablo das Oliveiras
    Pablo das Oliveiras
  • 1 de jun.
  • 3 min de leitura
“Depois do largo do Pechincha, saltar na Padaria Dora, esquina da av. Geremário Dantas com rua Edgard Werneck. Seguir até a vila, na rua Arthur de Sá.”

A orientação do endereço estava escrito assim no papel, que eu li pra mãe. Saltamos na Padaria Dora, toda pintada de azul, e andamos bastante até chegar à pequena vila, com três casinhas alinhadas pelas varandas estreitas com mureta baixa – num passo alto a gente poderia passar de uma pra outra. A casa do meio estava vazia, e o pai já estava pintando tudo pra gente morar. Sala, quarto, banheiro e um cômodo, ao fundo, transformado em quarto, pra eu e Tonzé dormir.


Casa sóbria pra nossa família com o coração apertado de tristeza. Pai quase não empreitou trabalhos; Tonzé se alistou no Exército e ficava pelo quartel, como ordenança do capitão. Minha irmã Regina não viu seu bebê nascer... mãezinha e filhinha nunca voltaram para casa ... mãe, silenciosa e provedora, abriu o armário, separou as peças de cama, mesa e banho de pouco uso e mais bonitas pra oferecer e vender na vizinhança.


O pai e os antigos amigos chamavam a mãe de Lina; na vizinhança da vila, em Jacarepaguá, quem conhecia ou lia a placa “VENDE-SE” no portão, chamava por dona Maria, que atendia pra vender picolé de frutas, pipoca e amendoim torrado feitos em casa. Na varandinha da nossa vila, depois da escola, eu ajudava com reforço escolar as filhas das vizinhas, duas meninas mudas; aprende mos juntos a nos comunicar.


Eu ainda estudava na antiga escola e seguia em dois ônibus até a Pavuna. No ano seguinte, fiz a transferência pra Jacarepaguá, melhor estudar no bairro. Estranho foi andar pra trás: quem cursava o 1o ano do ginásio, como eu, voltou à 5a série... o curso Primário e o curso Ginasial foram transformados em Primeiro Grau. Era a ditadura da Lei. A escola nova ficava no Pechincha, no alto de uma rua, eu não conhecia ninguém e queria conhecer todo mundo... Meu primeiro dia de aula foi assustador! As turmas fomaram no pátio, subiram às salas, e não demorou muito, o sinal tocou sem parar e veio a ordem...

“As aulas estão suspensas. Todo mundo dispensado!” O zum-zum-zum crescia com a correria pelas escadas... “Ligaram dizendo que tem uma bomba na escola...” “Bomba?”... “Onde?” “Quem?...” “Sei lá...”

No dia seguinte, a escola estava lá, inteira, nada explodiu, não houve telefonema anônimo e as aulas seguiram normalmente. Na hora da saída começou a chuviscar e quem tinha levado o guarda-chuva desceu a rua com um monte de gente embaixo do chapéu. Parecia que não tinha mais ninguém na escola, e eu fui embora sozinho, descendo a rua... De repente, ouvi um psiu! psiu!... Olhei pra trás e vi um casaco andando sozinho! Já perto de mim, disse: “Ei ... garoto entrar aqui...”


A voz vinha de dentro do casaco e continuou falando: “Bota seu braço aí, na manga do capote...” Ainda chuviscava... então, eu entrei no casaco e lá dentro tinha uma garota compridona, com seu braço na outra manga. Daí perguntei: esse casaco é seu?

“Não. É o capote do meu pai. .. Eu vi você na sala, somos da mesma turma. Qual é o seu nome?” Pablo, eu me apresentei e depois perguntei e o nome dela... “Uhuuu... Pablito cabrito, meu nome é Eliane.”

Uhuuu... Eliote capote com duas cabeças em cima do cangote... No céu daquela tarde, o sol riscou por cima do chuvisco um arco-íris... Na curva da ladeira, um capote com quatro pernas, dois braços e duas cabeças desceu a rua da escola cantando

“Nós somos jovens, jovens, jovens. Somos do exército da Paz...” “Exército do surf”. A versão brasileira é de Neusa de Souza. (Composição original)

Esse abraço de amizade se renova há 55 anos, eu, Pablito cabrito e ela Eliote capote, ainda rimos muito desse encontro surreal.

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