• Janis Cassilia

MULHERES INTERNADAS NA COLÔNIA JULIANO MOREIRA: QUANDO A DOENÇA MENTAL ROTULA O MUNDO

Atualizado: 8 de Ago de 2021

O professor Val Costa convidou a historiadora Janis Cassilia para escrever na coluna Yakaré Upá Guá nessa edição em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Janis é nascida e cresceu no bairro da Taquara. Viu as transformações da Baixada de Jacarepaguá ao longo do fim do século XX e início do XXI. Passou a infância brincando nos terrenos da antiga Colônia Juliano Moreira. Formou-se em História pela UFRJ e fez Mestrado em História das Ciências e da Saúde pela Fiocruz. Integrante do Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá, tem pesquisas na área da História da psiquiatria no Brasil, com ênfase na História do atual Instituto Municipal de Assistência à Saúde Mental Juliano Moreira.


Saúde e doença são opostos que se complementam. A doença só pode ser compreendida se tivermos em mente que existe o ser saudável. Estar doente é não estar saudável e vice-versa. Mas e quando uma mulher, em uma época em que lutas feministas começavam a se delinear no Brasil e o mesmo vivia um governo populista, era rotulada como doente mental? O ideal de “mulher saudável” era aquela que se encaixava perfeitamente no papel social de filha/mãe/esposa. O que encontramos entre as mulheres internadas na Colônia eram o contrário desse ideal. Se solteiras, eram autônomas; se casadas ou filhas eram rebeldes e não se submetiam à autoridade masculina.


A Colônia Juliano Moreira, inaugurada em 1924 para pacientes homens crônicos, passou nas décadas de 30, 40 e 50 por um grande processo de expansão estrutural e de atendimento, passando a abrigar casos agudos de doença mental, mulheres, crianças e idosos. Foram inauguradas inúmeros pavilhões e dois núcleos destinados às mulheres. Lá elas viviam seguindo as regras da instituição, com os horários ritmados pela equipe médica. Mulheres como A. internada que dizia “ter sido trazida por seu marido”, “morava em frente a casa de correção e que ouvia acusações que ofendiam sua moral”, “começou a ficar triste e a pensar que o marido queria abandoná-la”. A tensão no matrimônio era evidente “já que tinha muito medo do marido”, “guarda-civil” e da “mulher do rapaz do qual é admiradora”.


Internadas essas mulheres eram enquadradas como “domésticas”, apesar de F. relatar “ser proveniente de família abastada e ser jornalista”. Também internada pela família outras eram costureiras, comerciantes, autônomas, com renda significante para a família, mas não registradas pela instituição como tal. Como terapêutica eram encaminhadas à serviços relacionados ao mundo doméstico, como a lavanderia, o bordado e a costura.


Quem de fato foram as mulheres internadas na Colônia Juliano Moreira nos seus primeiros anos? Essas mulheres, lá viveram, constituíram família e morreram, muitas vezes confinadas em celas de isolamento, enfermarias, ou perambulando pela extensa área da Colônia de então. Não era incomum, ainda nas décadas de 70 e 80, serem empregadas nas casas de funcionários ou de moradores das redondezas em troca de cigarros, bebidas ou pequenas quantidades de dinheiro. Andavam, falavam e se faziam presente. Eram “moradoras” de Jacarepaguá. Com o fim da internação compulsória e a criação dos hospitais-dia, essas personagens, assim como tantos outros tornaram-se raridade no dia a dia de Jacarepaguá e dos sub-bairros mais próximos da Colônia. Tinham suas particularidades, mas a elas era empregado o rótulo de doente, “maluca” ou “doida”. A doença mental traz como estigma a rotulação e a morte social decorrentes da internação. Porém, contornando e tornando maleáveis os obstáculos impostos pela estigmatização, essas mulheres viveram sob as regras da vida hospitalar e de um sociedade “acostumada” com suas presenças.


Assim eram as vidas de milhares de mulheres internadas na Colônia por diferentes motivos e diagnósticos: esquizofrenia, epilepsia, oligofrenia, sífilis cerebral, psicose maníaco-depressiva, sem diagnóstico, etc. Enquanto em prontuários de homens encontramos muita documentação, nas de mulheres, o silêncio e a ausência de documentos é o mais comum, com registros de entrada e de morte ou evasão. Uma justificativa para isso era a superlotação da instituição que impedia os poucos psiquiatras que lá trabalhavam realizarem suas tarefas de maneira satisfatória. Outra justificativa é que casos de mulheres doentes mentais tinham pouca atenção para a psiquiatria da época, visto que a mulher era “governada” pelo seu sistema reprodutor (útero e ovários), sendo seu cérebro e psique muito influenciado por esses órgãos. Daí  a grande presença de registros de menstruações, menopausas e outros relacionados às “regras femininas”.


Um caso interessante é o grande número de exames de virgindade, sempre solicitados de maneira extra-oficial (papel comum escrito à lápis ou caneta, sem assinatura do solicitante). O resultado na maior parte das vezes: “deflorada”. Esse dado demonstra a vida sexual dessas mulheres, algumas que constituíam família com outros pacientes homens, outras vezes, possivelmente, vítimas de abusos. Seus filhos ou eram recolhidos por suas famílias ou à pupileira, que originalmente era destinada aos filhos dos servidores residentes na Colônia. Casos que denotam uma “outra vida” e condição contrária ao isolamento preconizado à instituição.


A sexualidade também estava relacionada à doença mental. A sexualidade “desviante” (homossexual, com falta ou excesso de prazer) era visto como sintoma. “Ninfomaníacas”, “assexuadas”, “lésbicas” eram encaminhadas à instituição e tinham seus passos regulados e anotados.


Ao analisar o caso das mulheres internas na Colônia podemos verificar que algumas das modificações na relação entre doença mental e o feminino são frutos das transformações pelas quais passava a sociedade brasileira. Sexualidade e tensões familiares não compõem mais as principais causas de internação.  O trabalho feminino que ganhava mais espaço na sociedade de então, não era reconhecido na Colônia. Ainda assim, em meio a uma instituição asilar, essas mulheres viveram além dos que os registros médicos (vazios em sua maioria) apontam. Possuíam história e tornaram-se figurantes de destaque na nossa região.

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