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MULHER QUILOMBOLA DA BAIXADA DE JACAREPAGUÁ

Meu nome é Maraci Soares, nasci no quilombo do Camorim, em 14 de setembro de 1965, e minha remanescência vem do meu avô materno, Avelino Caetano — os negros do capitão do mato Caetano, homens de confiança de Vitória de Sá, citados no livro de Armando Magalhães Corrêa, O sertão carioca. 

Nascer mulher já é um desafio, e ser mulher quilombola é como matar dez leões por dia e ainda ter fôlego para ficar em vigilância o tempo todo, pois o machismo enraizado começa na nossa base familiar, em que o pai é quem manda, a palavra final é dele, é ele quem decide

Sou militante das causas sociais e comecei na Igreja Católica Ortodoxa, onde fiz a primeira comunhão, e na qual liderava o grupo jovem, organizando os cantos, os lanches, a ornamentação, e promovia ensaio de peças de teatro. Aos 18 anos, fundamos a Amaca, primeira Associação de Moradores e Amigos do Camorim e Adjacências. E segui a minha trajetória participando do Movimento União Popular (MUP) da Baixada de Jacarepaguá, que atuava com outros movimentos em defesa da moradia da classe trabalhadora, lutando contra a remoção de comunidades. 

Hoje, participo da Comissão Social do Alto Camorim, e sou formada em Resolução Básica de Conflitos em Segurança Pública, combate a incêndio, auxiliar de enfermagem, além de ativista social e integrante da Teia de Mulheres da Zona Oeste. Estou concluindo o curso Técnico Defensoria nas Favelas, um projeto-piloto da Defensoria Pública do Estado, e minha área de atuação será de Camorim a Vargem Grande. 

A mulher negra quilombola, que vive com dores e rezando todos os dias pela própria saúde mental, e principalmente pela cura dos companheiros que adoecem pelas violências em suas mais diversas categorias — pois somos violentados desde o dia em que nascemos até o dia em que deixamos de existir, fazendo parte de uma das mas frias estatísticas —,,precisa ter força e muita fé.

Como espírita umbandista, mãe de duas meninas, avó de seis meninas e um menino, sigo firme nas lutas, enquanto meu Pai Oxalá permitir. Os desafios desumanos que temos que encarar no dia a dia para sobreviver não permite medo, pois ter medo é negar a própria vida. Sou feminista e contra o machismo e o patriarcado. Vidas negras importam, mas quando falo sobre o assunto sou criticada por alguns que não entendem, mais é preciso estudar e se atualizar para ter a noção real de que ainda somos escravizados por um país em que os senhores não tiraram a chibata das mãos. 

Agradeço a todas as companheiras de luta e ao Pai Maior por esses anos em que lutamos, juntas, pela defesa da vida e por uma sociedade mais justa.

Escrito por Maraci Soares

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