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IMPEACHMENT JÁ PARA BOLSONARO

Atualizado: 18 de jul. de 2021

Charge do cartunista estadunidense Kevin Kal Kallaugher, publicada na revista The Economist: “Brasileiros, saiam! Uma chuvinha não irá machucá-los.”


No início da pandemia da Covid-19 no Brasil, o deputado federal e ex-ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB/RS), afirmava com fervor que 70% da população seria infectada com o novo coronavírus, gerando, assim, uma suposta imunidade de rebanho. Essa seria a melhor saída para o país, segundo o deputado bolsonarista e, consequentemente, o próprio presidente Bolsonaro, que reproduziu esse discurso por diversas vezes. Em abril de 2020, o presidente chegou a comparar o vírus a uma “chuva [que] vai atingir você” — ainda que existam dezenas de possibilidades para se proteger de uma chuva — ou seja, era só mais um dos vários acenos de Bolsonaro à teoria catastrófica da tal imunidade de rebanho.

Em março de 2020, vislumbrando a crise do sistema de saúde do Reino Unido, o Imperial College, renomada universidade da Inglaterra, lançou um estudo provando por modelos matemáticos que a imunidade de rebanho era um erro devastador, fazendo com que o governo bretão aplicasse o controle e o distanciamento social necessários para minimizar o contágio. Aqui no Brasil, Jair Bolsonaro preferiu ignorar o estudo publicado pelos ingleses e seguiu reproduzindo seu discurso. Em julho de 2020, citou mais algumas vezes a metáfora da chuva que atingiria inevitavelmente a todos, provocando e ameaçando a população brasileira a “deixar de mimimi”, e que o país não era formado por “maricas”. O que parece é que o presidente não só desdenhou da ciência, como relutou para que, pelo menos, 70% dos brasileiros contraíssem o vírus.

Se procurarmos a matéria do jornal El País (21/01) e assistirmos à entrevista da pesquisadora Deisy Ventura para o canal do microbiologista Átila Iamarindo, veremos que não só parecia, como é fato. O Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário (Cepedisa), da Faculdade de Saúde Pública (FSP), da Universidade de São Paulo (USP), e a Conectas Direitos Humanos, uma das mais respeitadas organizações de justiça da América Latina, se dedicam a coletar e esmiuçar as normas federais e estaduais relativas ao novo coronavírus, produzindo o boletim o Direitos na Pandemia – Mapeamento e Análise das Normas Jurídicas de Resposta à Covid-19 no Brasil. Em janeiro deste ano, lançaram uma edição especial na qual fazem uma afirmação contundente: “Nossa pesquisa revelou a existência de uma estratégia institucional de propagação do vírus, promovida pelo Governo brasileiro, sob a liderança da Presidência da República.”

Os pesquisadores conseguiram identificar centenas de atos, modificações de normas e regras, boicote a pessoas públicas que tentassem combater a disseminação do vírus, além de uma grande campanha de propaganda que pagou milhares de reais a influenciadores digitais para que divulgassem supostos tratamentos precoces com medicamentos cientificamente comprovados como ineficazes ao tratamento da Covid-19. Bolsonaro chegou a provocar, em média, uma aglomeração por dia, segundo o levantamento, fazendo encontros informais com a população, em sua maioria, sem usar máscara — inclusive, seu filho, Eduardo Bolsonaro, nas redes sociais, recomentou aos espectadores: “enfiem a máscara no rabo” —, e vetou a obrigatoriedade do uso da máscara em presídios, templos e estabelecimentos. 

O governo ainda gastou quase 90 milhões de reais na compra de hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, comprovadamente ineficazes ao tratamento da doença. O Conselho de Saúde ainda apontou que, em agosto de 2020, o governo cancelou a compra de medicamentos do chamado “kit intubação” e, no mesmo mês, o Ministério da Saúde não respondeu à proposta da Pfizer — empresa farmacêutica estadunidense — sobre a venda de um lote de 70 milhões de doses de sua vacina. Em outubro do ano passado, desautorizou a compra da Coronavac. Tudo isso sem contar os esforços do Governo Federal contra o auxílio emergencial de R$ 600,00.  

Hoje, sabemos o resultado dessa campanha avassaladora do Governo Federal, que se esforça em jogar completamente essa culpa para os estados e municípios — que têm, sim, parcela de responsabilidade. O Brasil chegou a bater, em março deste ano, a marca da concentração de 1/3 das mortes diárias no mundo, mais de 66 mil mortes no mês (maior que o recorde de mortes por homicídio em 2017, 63.880). Temos conhecimento também que o país se tornou o “celeiro das variantes”, um verdadeiro festival de mutações do coronavírus (Sars-CoV-2). 

O portal IG e O Globo (12/4/2021) noticiaram que o número de mortes de indígenas por Covid-19 — no período de fevereiro a outubro de 2020 — é o dobro do número divulgado pelo governo. A notícia se baseia nos dados publicados pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, que contabilizou 670 mortes, contrariando os números do governo, 330. Quanto ao número de casos, o governo publicou um número 14% menor do que o da Organização Indígena. Em fevereiro deste ano, a Revista Piauí revelou que “mortes de indígenas por Covid-19 se igualam ao número total de mortes na Noruega”. Em março, o registro de mortes de indígenas ultrapassou a marca de 1 mil, e etnias vão se extinguindo. Apesar disso, o acesso prioritário à vacina para mais de 1 mil indígenas no Piauí foi negado pelo Ministério da Saúde. 

Somando o aumento das queimadas, a devastação cotidiana da Amazônia e do Cerrado, esse atentado aos indígenas, a baixa credibilidade dos dados publicados pelo Ministério da Saúde e as demais atrocidades comentadas neste texto, o adjetivo cabível ao presidente Bolsonaro é: GENOCIDA. Aguardemos os próximos capítulos.

Escrito por Marcus Aguiar

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