• Claudia Scott

FUI DEMITIDA TRÊS VEZES E... SOBREVIVI!

Atualizado: 21 de out. de 2021

A primeira demissão a gente nunca esquece. Eu havia pedido demissão de uma empresa que eu gostava muito, onde trabalhava há 12 anos, para assumir uma posição executiva em outra empresa. Ponte área, motorista buscando no aeroporto, viagens internacionais, porém, após dois anos e meio, as operações no Rio de Janeiro terminaram e, então, eu precisava escolher: ir para São Paulo ou... enfim, fui demitida. Até esperava que isso pudesse acontecer.


Na noite da minha demissão, houve um vendaval e uma daquelas chuvas torrenciais. O vento foi tão forte que derrubou uma árvore gigante na rua em que moro. Em meio ao estrondo dos fios de energia elétrica se rompendo com a queda, e a chuva que caía, eu também chovi. Ou melhor, chorei. Dentro de mim existi a aquela sensação de que troquei o certo pelo duvidoso. De que troquei 12 anos de estabilidade por dois anos e meio de uma aventura inconsequente.


Um mês depois, graças a Deus, já tinha me recolocado em outra empresa. Ganhando menos, mas trabalhando com um ex-diretor com o qual eu tinha adorado trabalhar no passado.


Quando a gente trabalha com pessoas que a gente admira (e que nos fazem aprender todos os dias), recebemos mais e mais conhecimento, além de espaço para sermos o melhor de nós. E isso, sem dúvida, era um salário indireto que compensava a redução em relação à empresa anterior. Bons tempos que também se encerraram após quase quatro anos. A limitação das operações no Rio estava começando, mas, dessa vez, sinceramente, eu não esperava que essa situação fosse me atingir. Não esperava que isso pudesse acontecer.


No dia de minha segunda demissão, cheguei em casa meio envergonhada. Tinha recusado uma proposta de mudança de emprego recentemente e me senti uma verdadeira idiota por não ter aceitado. No entanto, não adiantava ficar remoendo minha decisão e não fazer nada.


Uma semana depois, fui trabalhar. De graça! Fui ser voluntária nos Jogos Paralimpícos Rio 2016. Também tinham me chamado para ser voluntária nos Jogos Olímpicos, mas, como estava trabalhando, recusei. Quando recebi a ligação para ir para os Paralímpicos, aceitei imediatamente. Lá recebi um “tapa na cara” do que é a superação humana.


Vários atletas paralímpicos sofreram muti lações, acidentes e tombos que os colocaram naquela condição física. Mesmo assim, se reergueram e superaram todos os limites para estarem ali, na minha frente, competindo lindamente. Assistindo a uma parti da de basquete em cadeira de rodas, lá estava eu (toda linda com meu uniforme de voluntária) segurando o choro. Fiquei envergonhada (comigo mesma) de estar reclamando do meu segundo “tombo”, da segunda demissão, diante de tantos exemplos de superação que passavam na minha frente.

Voltar ao mercado de trabalho formal, dessa vez, levou mais tempo. Acabei retornando, oito meses depois, para uma posição operacional, ganhando menos ainda, mas feliz por estar voltando à ativa. Fui questionada (por muitas pessoas) como eu estava tendo a coragem de regredir tanto na minha carreira. Mas nunca me preocupei com isso. Afinal, jamais tive vergonha de trabalhar.

Depois de aproximadamente um ano e meio, a empresa me transferiu para outra área, mas a vaga para a qual eu estava destinada foi cancelada. Assim, novamente, fui demitida. Dessa vez, eu estava percebendo que alguma coisa não ia bem (em função da demora da criação dessa vaga), mas também não imaginava mais uma demissão.

Às vezes me passa pela cabeça que, se eu ainda estivesse na empresa da qual pedi demissão, estaria bem colocada, fazendo o mesmo que sempre fiz. Mas imediatamente penso que, se eu não ti vesse optado pelo novo, não teria conhecido tantas pessoas e lugares novos, não teria tido um piriri antes de subir no avião, não teria ti do frio na barriga, não teria passado por todas as três demissões e não teria aprendido tudo que aprendi.

Afinal, a vida é como aprender a andar de bicicleta: a gente cai e se levanta, cai e se levanta, tantas vezes, que uma hora a gente aprende que tombos fazem parte do risco de pedalar livremente com a brisa no rosto. Tombos também fazem parte do risco de nossas escolhas diárias no exercício de viver.

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