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Freguesia: especulação imobiliária, crescimento desordenado e falta de água


Manifestação de moradores da Freguesia contra a CEDAE


Moradores querem saber da CEDAE: onde está a nossa água?

Moradores de Jacarepaguá sofrem todos os anos com falta de abastecimento

*Texto de João Magalhães e Fotos de Bruno de Blasi

O mês de janeiro deste ano foi de protesto e de sede para os moradores de alguns bairros de Jacarepaguá. Três manifestações tomaram as ruas do bairro Freguesia nos dias 16, 18 e 26. As duas primeiras tiveram como foco a falta de água nas ruas Timboaçu, Guanumbi e no Morro da Tirol, e quanto mais o caso ganhava notoriedade nas redes sociais, mais moradores apontavam que também estavam passando por problemas idênticos.

Começou a faltar água nas torneiras em novembro, e em dezembro, não havendo retorno sobre as reclamações na Cedae, a Associação de Moradores e Amigos da Freguesia (AMAF) lançou nota sobre o assunto, e uma moradora da rua Tirol organizou um abaixo-assinado que foi protocolado na própria empresa. Na nota, a Associação informava ainda que a situação vem se repetindo desde 2014, e que os serviços de abastecimento de água estão cada vez mais precários. Entretanto, mesmo assim, a Cedae informava aos consumidores que não havia falta de água, pois os níveis do Guandu estavam normais.

Tal descaso afetou a vida de muitos moradores da Timboaçu e do Morro da Tirol, pois por residirem em locais íngremes, precisam descer para ir até a casa de parentes com louças e roupas sujas para lavá-las. Idosos acamados tiveram os tratamentos lesados. A falta de pressão da água é evidente, pois os moradores da parte mais alta da rua estão sem água há mais tempo. O início da falta de pressão de água e do não abastecimento foi no mês de novembro, sendo que no decorrer dos meses seguintes nem mesmo a bomba de água foi ligada. Quando as manifestações começaram, os moradores já estavam sem água há três meses.

O desligamento das bombas faz parte de uma estratégia de rodízio de água chamada de “manobra”. Dessa forma, são selecionadas ruas para ficar um período sem água, enquanto outras são beneficiadas. A estratégia deveria ser feita para diminuir também prejuízos, porém os critérios de seleção das ruas e dos bairros parecem não estar equilibrados. Por enquanto, houver relatos de que ruas como a Timboaçu, Guanumbi, Tirol, Geminiano Góes, Estrada do Pau Ferro, e até mesmo partes da Gabinal, do Largo do Pechincha, Anil e Gardênia esteve sem água. Já a rua Araguaia, que tem o IPTU mais alto da Freguesia, manteve a frequência de água.

Diante da falta de respostas concretas da Cedae, um evento no Facebook foi organizado para que fosse respondida a seguinte pergunta: “Cedae, se não há problema de abastecimento, quem é que está tirando a nossa água?” A organização denunciou que os critérios para a falta de água de algumas ruas era duvidoso. “A Cedae desmente que haja rodízio de água no bairro… Não aceitamos que haja a realização de ‘manobras’ que selecionem os lugares que vão receber água ou não, e exigimos uma melhor estrutura dos encanamentos, das bombas e das elevatórias. Temos o direito de receber água.” Tal revolta pela estratégia de manobra de água resultou na manifestação do dia 26, que começou com um abaixo-assinado, o qual ainda está sendo distribuído nos condomínios e casas do bairro.


Segundo os manifestantes do dia 26, o problema tem se alastrado a cada ano que passa. Desde o “boom imobiliário”, que teve seu ápice em 2013, os problemas estruturais e a falta de planejamento se mostraram os principais inimigos para o abastecimento de água. Com o aumento da população na região, deveriam terem sido criadas novas redes de abastecimento de água, mas o que ocorreu foi o contrário. A estação de tratamento de água do Camorim foi abandonada, por ter apresentado aumento de cianobactérias. Um problema que poderia ter sido resolvido com tratamento de água e fiscalização.

DA FALTA DE PLANEJAMENTO AO DESABASTECIMENTO AS CONSEQUÊNCIAS DO “BOOM IMOBILIÁRIO” NÃO PLANEJADO E DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA DESENFREADA

A última obra prevista para amenizar as consequências do aumento de consumo, que afetaria a Zona Oeste do Rio de Janeiro, ocorreu em 2016. O “Programa de Substituição de Redes de Abastecimento da Cedae” foi implementado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, mas seu objetivo principal era reduzir os custos operacionais da Cedae, e não resolver os problemas do consumidor.

Em tese, as obras do Programa de Abastecimento iriam beneficiar 380 mil habitantes de 99 bairros na cidade do Rio de Janeiro e 34 bairros da Baixada Fluminense. Um número que não diminuiu os problemas da baixada de Jacarepaguá, porque mesmo após as obras, a falta de água permaneceu. Parte disso se explica pelo próprio aumento populacional. A partir de 2013, houve crescimento de 368 mil habitantes apenas na metrópole, segundo os dados do IBGE, fazendo com que as consequências de tal programa para o consumidor fossem mínimas.

Em 2015, Jacarepaguá concentrou o maior número de lançamentos imobiliários do Rio de Janeiro, 20,6%, e em 2016 ocupou o quinto lugar de maior número de lançamentos, 7,2%, segundo dados da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário. Está claro que a baixada de Jacarepaguá não pode esperar um novo planejamento estratégico apenas para depois de 2021. A falta de água estará cada vez mais crítica nos próximos anos.

Em comparação, obras estruturais como as do novo sistema de abastecimento de água de Nova Iguaçu têm resolvido problemas de forma eficiente. O sistema inclui um novo reservatório e um booster (conjunto de bombas que regula a pressão na rede). Tais procedimentos são emergenciais, e se forem replicados no município do Rio de Janeiro podem vir a resolver as dificuldades que estão sendo enfrentadas pelos moradores. É muito incômodo para a população perceber que a metrópole, mesmo com seu potencial turístico e sua relevância política e econômica, não está sendo priorizada.

A ÁGUA FALTA MAS A CONTA CHEGA! SAIBA COM QUEM CONTAR PARA ENTRAR COM AÇÕES NA JUSTIÇA

Até que alguma providência seja tomada pelas autoridades, o coletivo da União Estudantil de Jacarepaguá estará dando auxílio jurídico para as pessoas que não têm condições de arcar com a consulta ou com a entrada de processos. Os residentes do bairro que sofreram prejuízos pela falta de água podem encaminhar um e-mail para <contato.ueja@gmail.com>, solicitando ajuda jurídica.

Os demais moradores que quiserem participar e contribuir para essa luta, podem enviar comprovantes de reclamações, e-mails, mensagens, cartas e até mesmo prints que estejam diretamente relacionados com caso a da falta de água.




*Jovens estudantes e moradores da Freguesia

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