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Entrevista com Roberto Senna – O Papai Noel da CDD


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50 anos da Cidade de Deus

Entrevista com Roberto Senna – O Papai Noel da CDD

Papai Noel da CDD fala de sonhos e lutas

Para homenagear os 50 anos da Cidade de Deus, o Jornal Abaixo-Assinado (JAAJ) tem publicado uma série de reportagens, artigos, histórias e crônicas sobre a comunidade e sua gente. Neste mês, contamos a história de vida e de luta corajosa de um sonhador, morador e militante cultural e social da Cidade de Deus, Roberto Senna, o Cabral, agora muito mais conhecido, porque se transformou no Papai Noel da Cidade de Deus.

JAAJ – Fale um pouco de seu início de militância?

Cabral – Tenho uma história de luta na comunidade de Cidade de Deus. Comecei minha militância no final da década de 1970, em plena ditadura militar, no Grupo Perspectiva de Teatro e Cinema e no Conselho de Moradores da Cidade de Deus (Comocid). Um tempo de muita luta pela redemocratização do país e por saúde, moradia e educação na Cidade de Deus. Tenho orgulho de ser um dos fundadores do Jornal Abaixo-Assinado de Jacarepaguá, um periódico que resiste na região há 12 anos.

JAAJ – Mais recentemente, quais foram suas ações na área cultural?

Cabral – Hoje, me defino como um agente cultural comunitário, preocupado com as questões sociais que vivemos na comunidade. Faço cultura por acreditar que através dela podemos mobilizar e conscientizar nossos jovens e crianças. Por isso, já participei da coordenação do Ponto de Cultura Itinerante. Fiz a produção das exposições do artista plástico Gilmar Ferreira e, juntos, criamos o projeto “Arte na Praça” e fui monitor da Arte Expressa, uma oficina de desenho que produziu, mais tarde, as pinturas e desenhos nos painéis da Linha Amarela. Atualmente, sou coordenador do coletivo de artistas plásticos, no qual desenvolvemos o projeto “Pintando na Praça”, que é uma oficina de pintura e recreação. E em dezembro, sou o Papai Noel da Cidade de Deus, e distribuo presentes, sorrisos e uma palavra amiga para as crianças e todo o povo da comunidade.

JAAJ – Por que sua família veio para a Cidade de Deus?

Cabral – Cheguei menino, em 1966. Morava em Inhaúma, de aluguel, e meu pai, Accacio, ficou sabendo que tinha um conjunto habitacional com muitas casas vazias em Jacarepaguá. E ele não teve dúvida, veio com a cara e a coragem, e ocupou uma dessas casas, na qual moro até hoje.

JAAJ – Quais eram as maiores dificuldades daquela época?

Cabral – O bairro não tinha estrutura, água, luz, além de poucas escolas e muita lama. Tem uma frase que falamos até hoje: “Cidade de Deus, Cidade de Jesus, de dia falta água e de noite falta luz.” Mas isso não importava para meus pais, porque fugimos do aluguel e, assim, sobrava algum dinheiro para outras despesas.

JAAJ – Em 50 anos, quais as dificuldades atuais que persistem?

Cabral – Ainda lutamos pela saúde e educação de qualidade. Precisamos de mais profissionais de Saúde nas duas unidades de assistência médica da comunidade, principalmente cardiologistas e pediatras. Na educação, necessitamos de escolas em tempo integral para o bem e o futuro de nossas crianças. Assistimos ao absurdo da obra na Escola Estadual Pedro Aleixo, paralisada há um ano, e o fechamento da Casa de Justiça. Para complicar ainda mais a vida dos moradores, retiraram todas as nossas linhas de ônibus — 240 – 701 – 754 – 690 – 731. Por isso, estamos na campanha com o JAAJ: “Quero meu ônibus de volta!”.

JAAJ – E cultura é problema?

Cabral – Cultura é problema porque faltam mais investimentos públicos e apoio às ações existentes. Imagine o dia que os governos aproveitarem o saber, a criatividade e o trabalho dos artistas da comunidade. Imagine esses artistas estimulando nossas crianças, jovens e idosos por meio da arte, da poesia, da pintura, da fotografia, do teatro, do cinema. Mudamos a cara da CDD, faremos uma revolução. Esse é meu sonho!

JAAJ – Depois dessa história de vida, qual a sua mensagem final?

Cabral – É para os moradores da CDD. Para você, que nasceu e mora na CDD, que convive com sua família e seus vizinhos. Vamos lutar pelo nosso bairro e gritar bem alto: “Eu gosto e amo o lugar que moro. Viva a Cidade de Deus.”

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