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EM ENTREVISTA, A PROFESSORA NELI DE MATTOS FALA SOBRE O RETORNO ÀS AULAS PRESENCIAIS NA REDE PÚBLICA


Jornal Abaixo-Assinado entrevistou Neli Belem de Mattos, moradora de Jacarepaguá, cientista social, professora de sociologia da rede pública estadual, ex-coordenadora do Sepe – Regional VI, ativista dos Direitos Humanos, especialista em Habitação de Interesse Social, pesquisadora independente do tema Segurança Pública e presidenta da 7a Zonal do Partido dos Trabalhadores, para saber seu posicionamento sobre o retorno às aulas presenciais na rede pública estadual durante a pandemia do coronavírus. 

JAAJ – Quando o tema “Retorno às Aulas durante a Pandemia” aparece na mídia, todo o debate se limita a uma questão de data. Mas o que exatamente está acontecendo? Há uma amnésia coletiva achando que as escolas têm uma infraestrutura impecável.

Néli – A pandemia realmente escancarou toda a sorte de desigualdades existentes na sociedade, e na área da Educação não foi diferente. Nossas escolas não têm infraestrutura para cumprir protocolos de segurança em saúde, nem fora de uma situação de pandemia, que dirá nela. Salas superlotadas, climatização sem manutenção, janelas de ferro que foram soldadas ao serem climatizadas (e ainda que não tivessem sido, não oferecem uma circulação de ar satisfatória).

No caso específico da Covid-19, como manter o distanciamento físico de 1,5 m numa sala com 45, 50 alunos? Teríamos que ter 15 alunos por sala, o que aumentaria em três vezes o número de salas; os refeitórios propiciam a interação, com alunos sentados frente a frente. Como separá-los? Jovens gostam do toque, do abraço, do contato físico e são insurgentes por natureza. Como exigir o uso de máscaras, quando o próprio presidente negacionista incutiu na cabeça das pessoas que jovens não adoecem? 

JAAJ – A greve de 2020 deflagrada pelo Sepe teve resultado?

Neli – Os profissionais da Educação, através do Sepe, conseguiram se mobilizar e lançar a campanha “Greve pela Vida”, no ano de 2020. Se não fosse o nível de consciência da categoria, as aulas seriam retomadas após o recesso de julho e a segunda onda da Covid-19 já teria se instalado há mais tempo no nosso estado.

JAAJ – As pessoas ficaram muito indignadas ao saberem que as clínicas privadas estavam comprando vacinas desvinculadas ao SUS. Mas separarem os protocolos da escola particular dos da escola pública também não é uma espécie de privilégio? Quem paga tem uma escola, quem não, aguarda os políticos se alinharem. Não existe fiscalização para escola particular? 

Neli – Acho que as coisas não são mostradas como realmente são. A mídia, seguindo sua orientação capitalista, difunde imagens de uma ou duas escolas onde realmente há protocolos de segurança em higiene, generaliza, e o imaginário popular absorve a ideia de que todas são iguais. Não são. O Sinpro (Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro, representante dos profissionais das escolas particulares) vem denunciando cotidianamente a falta de cumprimento desses protocolos. Obviamente, o lobby fala mais alto.

Por outro lado, estamos falando de públicos diferentes, não de escolas diferentes. Então, qual a diferença? Os alunos das escolas particulares têm o que Bourdieu chama de “capital cultural”: um acumulado de bens materiais e imateriais que os filhos da classe trabalhadora não têm acesso — computadores, internet banda larga, maior escolarização dos pais (que é transferida para os filhos), acesso à informação mais elaborada, entre outros.  Tudo isso é necessário para uma boa formação.

A Creche Municipal Luzes do Amanhã ministra apoio pedagógico e cuidados às crianças com seis meses até três anos de idade. Está localizada no bairro Cidade de Deus.


JAAJ – Será que existe algum outro objetivo…

Neli – Acredito que exista uma intencionalidade do governo no sentido de oferecer um número mínimo de vacinas via rede SUS somente para cumprir um protocolo e criar condições para que a rede privada ofereça a vacina. Na ânsia de voltar à “normalidade”, a classe média pagará pela imunização e também imunizará seus filhos, enquanto a escola pública ficará dependente do SUS, disseminando a Covid-19, abrindo um fosso maior do que o que já existe entre as classes sociais e a educação e colocando em risco a imunização coletiva.  

JAAJ – Não precisa de motivos elaborados para um aluno se evadir do colégio. Foi com muito trabalho que os índices de vínculo escolar aumentaram. A demora do retorno às aulas presenciais e a precariedade do ensino remoto não poderá levar o Brasil à estaca zero?

Neli – Vamos ter em mente que o ensino remoto foi somente um paliativo para dar resposta à sociedade. Nossos professores não têm formação para tal, nossos alunos, como expus anteriormente, não têm ambiente (muitas vezes há um único celular para dois, três alunos de uma mesma família) e condições de aprendizagem (silêncio, confortabilidade), e as trocas presenciais, tão importantes no processo de aprendizagem.  Os conteúdos foram simplesmente “jogados” no ambiente virtual. Sem dúvida, houve um grande retrocesso no ano de 2020, que ainda não foi quantificado.

Por outro lado, muitos alunos tiveram perdas humanas na família. Que adolescente teria condições emocionais para dar conta de uma situação para a qual não estava preparado? 

O índice de evasão será altíssimo, mas os números serão mascarados pelo acesso de uma classe média baixa, que, desempregada, matriculará seus filhos na escola pública. Mais uma vez, os estudantes do ensino público serão os mais prejudicados e farão parte de uma massa de mão de obra sem qualificação para o mercado de trabalho.

O Escola Municipal Embaixador Ítalo Zappa é referência para ensino fundamental I e II e está localizada no bairro Vargem Pequena.


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