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DESTRUIÇÃO NO "VALE DOS JACARÉS"

  • Foto do escritor: Emanuel Alencar
    Emanuel Alencar
  • 3 de mar.
  • 2 min de leitura

São múltiplos os movimentos. Ao mesmo tempo. Ao fim, quem perde é a restinga, o brejo, o mangue que cerca a Lagoa de Jacarepaguá. A região, cujo batismo tem origem tupi-guarani e significa "vale dos jacarés", tem experimentado, como nenhum outro território carioca, a força bruta da especulação imobiliária. Não há sequer tentativa de disfarçar. O que resta de vegetação é a bola da vez das grandes construtoras.


Há sete meses, Flavio Costa Bezerra Filho, procurador do Estado do Rio, reconheceu que o empreendimento Invert, da Gafisa, na Rua Paulo Moura, invadiu a Faixa Marginal de Proteção (FMP) da Lagoa de Jacarepaguá. Destruiu, portanto, habitat de anfíbios, répteis e peixes.


Ao mesmo tempo, o Ministério Público do Estado pedia na Justiça punição à operadora do Aeroporto de Jacarepaguá pela supressão — com autorização do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) — de 22 hectares de restinga.


Em mais um ataque, terreno da Rua Tatiana Memória, ao lado do Condomínio Alphaville, acaba de ganhar tapumes para um novo projeto imobiliário, pela Cyrela. Só que, pasmem, o terreno deve ser recuperado pela Gafisa, em acordo estabelecido com a justiça há duas décadas. No Rio de 2026, rasgam-se acordos, decretos e tombamentos em nome da facilitação extrema da turma o concreto.


Diante desse cenário, o governo do Estado e a prefeitura têm adotado um silêncio criminoso, fomentador do incentivo direto à predação das áreas úmidas. A ausência de fiscalização rigorosa e a conivência institucional permitem que o ecossistema seja fatiado sob o olhar indiferente de quem deveria protegê-lo.


Há quem faça pouco caso dos brejos, tão essenciais para a regulação do clima, o combate a enchentes, a captura de carbono e a biodiversidade. Cada metro quadrado perdido de área úmida da Lagoa de Jacarepaguá é um ataque à própria sobrevivência humana.


Essa negligência ignora, inclusive, compromissos internacionais de conservação, como os estabelecidos pela Convenção de Ramsar. Ao redor do mundo, áreas úmidas de importância estratégica são designadas como Sítios Ramsar, recebendo proteção rigorosa por serem vitais para a biodiversidade e o ciclo hidrológico.


Enquanto outras nações lutam para restaurar esses berçários de vida, o Rio de Janeiro parece caminhar na contramão, tratando brejos e lagunas — que deveriam ser protegidos com o rigor de um patrimônio ambiental global — como meros entraves ao lucro imobiliário.

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