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De Mariana, Brumadinho ao Rio de Janeiro: tragédias e desigualdades são a marca do Capital no Século

Texto de Sérgio Ricardo Verde*

Este início de ano, marcará o país por perdas humanas inestimáveis e desastres: os crimes provocados pelo rompimento de barragens de rejeitos da privatizada VALE em Mariana (MG), em 2015, e agora em Brumadinho; assim como as perdas geradas pelas inundações em comunidades pobres do Rio de Janeiro e de outras cidades fluminenses, não se limitam a tragédias anunciadas. A morte repentina do jornalista Ricardo Boechat, um dos poucos a dar voz na grande imprensa para algumas causas socioambientais que o sensibilizam, também nos provocou luto e tristeza.

Vivemos tempos de ascensão da extrema direita não apenas em países da Europa. Na França, no fim de 2018, a revolta dos “coletes amarelos” nos trouxe um sopro de esperança ao desnudar a hipocrisia de um sistema político-econômico dito desenvolvido e civilizado, que cada vez mais beneficia os interesses dos mais ricos, concentrando renda e riquezas. Enquanto isso, a maioria dos trabalhadores(as) encontram-se precarizados e empobrecidos; e assim como a classe média baixa, os desempregados e a juventude das periferias, tentam resistir lutando nas ruas contra a falta de assistência social, o desemprego, a perda de direitos e o desalento.

Do ponto de vista das políticas públicas nas áreas ambiental, climática e indigenista, estamos vivenciando um verdadeiro desmanche (ou desmonte), com a nítida subordinação destes órgãos públicos aos interesses da poderosa bancada ruralista e do agronegócio. Há riscos de crescente militarização da vida social e política, com a volta ao governo federal de setores autoritários e saudosistas da ditadura militar-empresarial de 1964-1985. O desemprego estrutural, a crescente desigualdade e pobreza, associados à grave crise ambiental e climática, são as marcas do Capital no Século XXI.

Para o Brasil reverter este processo de retrocessos civilizatórios na política, na economia e nos direitos arduamente conquistados no século anterior, será necessário primeiro vencer a “guerra cultural” que se originou na decepção da classe trabalhadora com os descaminhos e contradições adotados por governos de viés progressistas, na última década. Ao chegar ao poder, ao invés de enfrentarem os oligopólios dos meios de comunicação e avançar com a reforma agrária democratizando o acesso à terra e aos meios de produção através do cooperativismo, da economia solidária e de políticas de agroecologia, preferiu-se manter alianças no Congresso Nacional com o velho e atrasado latifúndio.

A liberação da produção de sementes transgênicas beneficiou grandes complexos agroquímicos que tem atualmente no sistema financeiro seus principais investidores. Enquanto estes governos optavam por perdoar dívidas bilionárias do latifúndio, o Brasil tornou-se um dos principais consumidores de agrotóxicos (venenos químicos) do mundo. Ou seja, ao mesmo tempo em que, neste período, houve a positiva inserção de grandes parcelas da população mais pobre no mercado de consumo, o que reduziu a fome e a mortalidade infantil, o país manteve inalterada sua trajetória histórica de mera plataforma de exportação de matérias primas (em especial, “commodities” como minério de ferro e soja), reproduzindo um padrão de desenvolvimento colonialista (neocolonialismo).

Para enfrentar estes tempos sombrios para o mundo do trabalho e de regressão de direitos, em que há um domínio da financeirização sobre todos aspectos da vida, da economia e da política, é preciso reinventar o porvir de um outro modelo de desenvolvimento.

Já não cabe neste tempo histórico, as profundas contradições que marcaram o período recente em que passamos, em pouco mais de uma década, da ascensão pelo voto de forças de esquerda (nos anos 2000), para o inusitado retrocesso de uma vitória político-eleitoral de forças do atraso, conservadoras nos costumes, que prega o fundamentalismo religioso e pretendem militarizar as nossas escolas públicas e silenciar e censurar o pensamento crítico nas universidades.

*Ecologista, produtor cultural e membro do Movimento Baía Viva  <sergioricardoecologia@gmail.com>

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