• Vanessa Guida

DA RAIZ, O FALATÓRIO, NARRATIVAS DE STELLA DO PATROCÍNIO

Atualizado: 22 de mar.

Stella do Patrocínio nasceu no dia 9 de janeiro de 1941, aqui mesmo, no Rio de Janeiro. Era jovem e trabalhava, quando foi deliberadamente encaminhada ao Centro Psiquiátrico Dom Pedro II, após ser presa. Este resumo aponta para sua voz como tática (involuntária) de permanência no ambiente hostil. Ela foi internada pela primeira vez em 1962, e transferida para a Colônia em 1966, onde passou a viver até a sua morte, em 1992, por diabetes e tristeza. Stella sofreu um duro processo de desterritorialização ao ser asilada compulsoriamente num hospital psiquiátrico. Usou a fala, a palavra e o silêncio como elementos fundamentais na construção das suas narrativas. Havia para ela a necessidade de pertencimento que ao mesmo tempo se configurava um lugar de perda, ausência e solidão, buscando por meio da comunicação oral estabelecer uma espécie de vínculo, ou individualização, com o espaço no qual permaneceria até o final da vida.

É fundamental trazer para esta discussão a construção poética, pois foi a partir dela que Stella resistiu ao longo dos anos que passou na Colônia. Participava das oficinas de arte que já ocorriam no espaço, como parte da reforma psiquiátrica, mas não gostava de desenhar nem pintar, preferia a conversa, o “falatório”, como ela mesma denominava. De acordo com a psicanalista e doutora em filosofia Viviane Mosé, que reuniu o que viria a se tornar o livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (2001), com diversas falas (poéticas) de Stella que, por meio de fragmentos de memória, por vezes incômodos, expressava sua perplexidade com o mundo. Assim, também se distinguia dos demais internos, como se olhasse a si mesma e as suas condições de fora do seu corpo, numa verdadeira prática de sobrevivência.

O objetivo indubitável desta investigação é trazer ao centro do diálogo a poética feminina marginalizada e desterritorializada, através do eco da voz de Stella. E refletir acerca de como era feita a manutenção e contenção de corpos, a partir de óticas higienistas essencialmente racistas e sexistas, nos hospitais psiquiátricos, por exemplo. E como a voz e a experiência feminina na sociedade são percebidas e, por diversas vezes, invalidadas. Ou mesmo a normatividade como o lugar em que a mulher é inserida e mantida quando se torna essencialmente incômoda, precisa ser discutido com mais profundidade. O movimento da reforma psiquiátrica brasileira, ainda que sustentado nos direitos humanos (universais), pouco tem incorporado especificidades do adoecimento psíquico de mulheres. No Brasil, estudos apontam que elas são a maioria nos serviços de saúde mental. A existência de Stella e o seu falatório, hoje, são considerados fundamentais para pensar questões como: apagamento e permanência da individualidade humana, protagonismo da mulher negra, saúde física e mental pela arte como medida curativa de relevância comprovada.

* Este resumo foi apresentado no Simpósio Temático I: desconstrução do manicômio do Seminário Memórias da Loucura 4, no Instituto Municipal Nise da Silveira, em 16 de dezembro de 2021.

Palavras-chave: reforma psiquiátrica, Stella do Patrocínio, poética, narrativas femininas, Colônia Juliano Moreira, arte

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