• Vitor Ambrosioni

COMO EU CUIDO DA ÁGUA QUE SUA FAMÍLIA BEBE TODOS OS DIAS

Atualizado: 11 de Set de 2021

Sou Vitor Ambrosioni, vulgo “Batata”, e ainda criança eu acordava cedo para pescar, tal qual a música “Milagre”, de Dorival Caymmi. Pescava sempre no mesmo local, na lagoa do Guandu. Essa é a lagoa de onde é retirada a água para abastecer a cidade do Rio de Janeiro. Minha vida é a lagoa e a lagoa é minha vida. Poucas vezes saí daqui para ir ao médico ou ao cartório, porém volto com pressa, quase com medo de perder a lagoa.


Até novembro de 2019, tínhamos uma lagoa cheia de peixes, mas a falta de cuidado com os rios que deságuam na lagoa de Quiabal se tornou um imenso problema para sua irmã inseparável, a lagoa do Guandu.


Há quatro rios que desembocam na lagoa de Quiabal, todos superdegradados por diminuição do fluxo de água e por lançamento de resíduos domésticos e industriais, vindos do Polo Industrial de Queimados. A lagoa de Quiabal é funda e recebia toda essa poluição sem problemas, por causa de sua profundidade. Ouvi falar que essa característica da Quiabal era chamada de “resiliência”. O assoreamento de dois desses rios acarretou a mudança de seus cursos, que passaram a desaguar na lagoa do Guandu. Tentamos com empenho, com “resiliência”, fazer uma contenção para que essas águas poluídas não contaminassem a lagoa de onde tirávamos nosso sustento. Reclamamos com a Cedae, com o Comitê de Bacia do Guandu, com o Inea, mas nenhum desses órgãos se importou.


Nos primeiros 60 dias de 2019, apenas nós fomos os prejudicados pela liberação de toda a poluição do Polo Industrial de Queimados. Contudo, em janeiro de 2020, veio a crise da geosmina, a natureza reagiu à poluição produzindo esse composto orgânico.


Como resposta, então, a Cedae, o Comitê de Bacia do Guandu e o Inea resolveram desengavetar uma obra idealizada em 2009. Obra que visa condenar nossas lagoas à poluição, construindo uma barragem, para que essa poluição não “contamine” as águas captadas pela Cedae.


Sempre cuidamos da água das lagoas e alertamos quando a água está tóxica. Até corpos mortos retiramos delas. Sabemos que essa barragem não vai resolver o problema da poluição, pois essa questão só será resolvida quando os poluidores forem punidos.


A água do Guandu vem de São Paulo, e esse estado pode cortar a “torneira” a qualquer momento. É preciso proteger os rios da Baixada para que nos forneçam água nas crises hídricas e não condená-los a serem condutores de esgotos industriais.


Meu pai trabalhou em indústrias, mas eu não. Se tivesse emprego nelas para mim eu teria trabalhado? Talvez. O mesmo para todos pescadores. A lagoa é nossa vida, a pesca nossa sobrevivência. Se a pesca foi nossa escolha? Eu não sei, mas garanto que é nossa paixão.


Cinquenta famílias de pescadores e 200 famílias de agricultores vivem dessas águas e precisam que sejam despoluídas. E para essa luta precisamos de você.

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