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Cine Taquara

A jovem Gleyser é a coordenadora do Cine Taquara


*João Magalhães –

Na Taquara, com uma “veia comunitária pulsante”, o Cine Taquara exibe filmes; cria debates e realiza intervenções artísticas do lado do BRT. Desde 2017, o grupo já realizou mais de 45 edições. Os eventos costumam trazer entre 60 a 80 pessoas que se alinham à necessidade, apontada pelo projeto de debater temas gerais como espectro político, gênero e raça. “É a nossa chance de dar oportunidade para as pessoas em volta das comunidades de Jacarepaguá; de mostrar algo diferente na arte”, disse Gleyser Ferreira, responsável pelo projeto.

Da poetisa para o mundo

Gleyser, diz ser um fruto das manifestações de 2013. Na época, com 15 anos, assumiu para si pautas antropológicas, sociológicas e políticas, levantadas pelas reivindicações, em seu dia a dia. As reflexões sociais lhe nortearam tanto que começou a frequentar o IFCS, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ para ter acesso a mais conhecimentos.

Aos 18, seus estudos se aliaram a uma necessidade política. Encontrou na poesia um ponto de partida para falar sobre os problemas de trânsito, saúde e educação. Durante seis meses, vendeu doces com poesias ao entorno da estação de ônibus e do BRT.

No sexto mês, percebeu que seria mais fácil trazer sua luta pelas demandas do bairro para unir em cada região um ponto de consciência cultural, e transitou da poesia para o cineclubismo, com a finalidade de “driblar” a falta de leitura do brasileiro . “As artes e a cultura são os maiores atrativos para as pessoas. São uma forma de fazer as pessoas dialogarem. Com os filmes, dá para falar de questões econômicas, ambientais e políticas, tudo através da visão das artes ”, diz ela.

Cine Taquara na praça


Um sonho que é sonhado em conjunto

Cine Taquara é poesia, mas não pensem vocês que é poesia de classe média ou dos saraus burgueses que se acham melhores que os outros. É poesia com ritmo, com experiência das ruas, que denuncia a desigualdade e discute periferia. Poesia desse tipo é chamada até de outro jeito, “SLAM”. É a luta viva na palavra e nos corpos.

É uma poesia escrita pela Gleyser, mas que é lida por muitas vozes. É um sonho que está sendo sonhado em conjunto. “Vários coletivos se ligam através do Cine Taquara. Nascemos para ser uma família e continuaremos sendo”, diz ela.

O esqueleto dos eventos são inicialmente montados pela própria Gleyser, mas a finalização da ideia é sempre coletiva. Com sabedoria, ela usa o Facebook como uma grande assembleia democrática. Todos que têm acesso à rede podem colaborar com o projeto, sugerindo filmes e indicando temas para as próximas sessões e debates.

Pessoalmente, a ideia de coletividade chega a ganhar um corpo de movimento. A cada edição, mais pessoas aparecem para apresentar ideias e ajudar na construção dos eventos.

O próximo passo: Procura-se sede

Com propostas político educacionais, o grupo quer transformar a Zona Oeste e construir um novo polo cultural no Rio de Janeiro. “A juventude é muito criativa, mas não está sendo aproveitada. Queremos transformar o cenário da juventude, tirá-la do caminho das drogas e do consumismo, mas para isso precisamos atrair os jovens e uni-los. Estamos tentando unir a juventude”.

Para isso, o Cine Taquara está em busca de algum espaço que possa recebê-los. O próximo passo é encontrar uma sede para dar oficinas; construir hortas comunitárias; capacitar outros jovens e expandir a rede do grupo, que sempre trabalhou com carinho para encontrar uma arte crítica, combativa às opressões e acessível a todos.

*É militante e colunista do JAAJ, morador da Freguesia, estudante da PUC e da UFRJ 

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