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CDD: DOS TELHADOS ÀS LAJES

Foto do escritor: Pablo das Oliveiras
Pablo das Oliveiras
26 de ago.
3 min de leitura

Cidade de Deus, cidade de Jesus – de dia falta água e de noite falta luz!


De boca em boca, as crianças cantavam e os moradores repetiam em deboche e denúncia os inexistentes benefícios que o Banco Nacional de Habitação (BNH) prometera ao Conjunto Habitacional contra as favelas removidas. Embora, as famílias tenha o costume de substituir a escassez pelo improviso, a cada bica que a água corria e a cada lâmpada que acendia o deboche e a denúncia eram transferidos para outros problemas na comunidade: a falta de transporte e de atendimento à saúde;trabalho distante; alimentação cara; educação e lazer precários. Para esses e outros problemas, as famílias, removidas em caminhões de recolher lixo na cidade, trouxeram consigo a ciência adquirida na favela e, a partir daí, praticaram o deslugar nu e cru a que chegaram e ergueram a sua Cidade de Deus.


Era comum seguir a pé até a Freguesia ou Taquara para pegar uma condução. Quando o ônibus circular 731, da Companhia de Transporte Coletivo (CTC), passou a percorrer as adjacências, com a passagem custando centavos, logo foi batizado de “Cata Mendigo”. Décadas depois, o governador Brizola encampou as empresas de ônibus do Rio de Janeiro e criou a linha de ônibus 600 Taquara–Sanz Pena, também da CTC, no qual, os passageiros regrados, entravam pela porta de trás e saltavam pela porta da frente – em norma da época –, e os invertidos em multidão entravam e saíam sem pagar pela porta de trás. Tinha de tudo no 600, nas horas de pico: festas de aniversário, namoros e até acasalamentos. A viagem ficava frenética com a morena Pantera ao volante, acelerando fundo e sorrindo largo. A Loura, no alto de seus quarenta e poucos anos, de minissaia e pernas cruzadas com precisão matemática, dava o tronco, a cada trec, trec, trec da roleta.



Na década de 1980, nos embalos da MPB, samba, funk, pagode e o grito de “Diretas Já!” nas ruas, convocando geral:


Você me abre seus braços e a gente faz um país.

Fullgás, Marina Lima e Antonio Cicero, 1984


As lutas e conquistas na CDD nos enchiam de esperanças de ser uma comunidade. Do COMOCIDE à FAMERJ foi escrita boa parte dos movimentos associativos de bairros, na cidade. Foi assim o 1o de Maio na CDD, em 1980, ainda na ditadura civil-militar. No ano seguinte, o 1o Encontro Popular pela Saúde, as assembleias por habitações no território eram um assombro de tanta gente.

Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela em que nasci...

Rap da Felicidade, Cidinho e Doca, 1994.


De casa em casa, eu mudei da Praça 17 Árvores pra rua Israel, no “15”; depois mudei pra rua Moisés, no Bariri; ainda morei na travessa Rubens, na Vila da Rosa. Tantos lugares de moradia na CDD, que o território se constituiu em mim como universidade e, em outra universidade, institucionalizei o meu oficio de professor. Por quase três décadas pisei o chão de casas, ruas, escolas seguindo os caminhos dos movimentos associativos na CDD. Vi muros subindo; portas de biroscas abrindo; puxadinhos esgarçando o abrigo das casas; vi telhas sendo substituídas por laje, no pesado e festivo mutirão aos domingos. Sobem os prédios e a Cidade de Deus não para de crescer e se adensa num estica e puxa; renomeou a si mesma em signo – senha indenitária pelas letras CDD: singular e plural.

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