• Marcelo Sant’ Ana Lemos

AS PRIMEIRAS SESMARIAS DE JACAREPAGUÁ E SEUS CONQUISTADORES DESCONHECIDOS

A intensificação da guerra pelo território do povo Tamoio, no entorno da Baia de Guanabara, tomou impulso após 1560, com a derrota dos franceses, seus aliados europeus, e a destruição do forte Villegaignon, que ficava na ilha Serigi ou Serigipe (seu nome primitivo em tupi, atual ilha de Villegaignon), por uma frota comandada por Mem de Sá, Governador Geral do Brasil.

Assim mesmo tendo enfraquecido a aliança franco-tamoia, os portugueses eram permanentemente hostilizados nessa região. Em resposta a essa situação a parti r de 1565, se estabelece o arraial militar de São Sebastião na Urca, que era uma cabeça de ponte portuguesa, em aliança com povo indígena Temiminó, para fazer frente ao domínio territorial das aldeias dos tamoios da Guanabara. Sob o comando de Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá, ocorreram diversas batalhas de canoas dentro da baía e em terra visando a conquista do território.

Somente a partir março de 1567 conseguiram os portugueses e temiminós conquistar definitivamente o território do lado oeste da Baia de Guanabara, com a derrota dos tamoios em Uruçu-mirim (Glória) e em Paranapuan (Ilha do Governador), obrigando eles a fugirem ou se submeterem a escravidão, acertando assim uma paz incondicional e unilateral.

Ao contrário do senso comum o lado leste da Baia de Guanabara onde ficava Niterói e toda área que ia até o Cabo Frio ainda estava dominada pelos Tamoios e a guerra prosseguiu nas décadas seguintes de 70 e 80. Infelizmente por conta das invasões francesas do século XVIII e do incêndio no edifício onde funcionava o Senado da Câmara dos Vereadores, no final deste mesmo século, muita documentação desse período se perdeu, não podendo hoje reconstituir muitas dessas lutas de resistência indígena.

A sede da cidade foi transferida então da Urca para o Morro do Castelo (arrasado na década de 1920), e pouco tempo depois se expandiu pela várzea ao longo da praia (atual área do centro do Rio de Janeiro) sendo o restante do território distribuído pelos vencedores e conquistadores do território, outrora indígena, para estabelecerem fazendas, engenhos e sítios. Ocorre que desde 1565, as lideranças portuguesas, para manter seus combatentes com vontade de batalhar, distribuíam sesmarias de porções do território carioca e fluminense ainda antes de terem sido conquistados. Esse foi o caso da Baixada de Jacarepaguá.

As primeiras sesmarias de Jacarepaguá foram solicitadas e distribuídas ainda no ano de 1565, por Estácio de Sá, só que os sesmeiros contemplados, por não terem desenvolvido culturas perderam o direito da posse delas, pois o regimento de sesmaria dava um prazo de três anos para iniciar o cultivo, sob pena de perda da concessão. É possível que alguns dos solicitantes tenham perdido a vida nas batalhas, ou então que acabaram desistindo e voltando para os seus locais de origem, antes ou depois da derrota dos Tamoios.

Uma região tão distante da nova cidade, cheio de restingas, lagoas, mangues e florestas, animais selvagens, com possibilidade de enfrentar ainda indígenas rebelados, onde existia uma extensa praia de mar aberto, em que navios de alto bordo sofriam dificuldades de ancoragem e somente com as canoas indígenas conseguiam desembarcar, levaram certamente ao desânimo os primeiros sesmeiros, dos anos iniciais da conquista. A outra alternativa para chegar a região seria por peabirus (trilhas indígenas) no meio da floresta da cidade até a Baixada de Jacarepaguá, difíceis de serem trilhados por quem não tinha costume. Chegou até nós somente o nome de um deles: João da Rocha Vicente, titular de terras “da outra banda da restinga”, isto é, próxima a região do Recreio dos Bandeirantes, que as recebeu mas nunca as explorou.

Outros dois sesmeiros, anos depois, solicitaram terras na região: Jerônimo Fernandes e Julião Rangel de Macedo. Os dois participaram na luta pela expulsão dos Tamoio, de seu próprio território ancestral, ao lado de Estácio de Sá e Mem de Sá. Deles nos temos mais informações:

  • Jerônimo Fernandes lutou lado a lado com Estácio de Sá desde as batalhas iniciais, por isso foi um dos primeiros a receber terras no fundo da Baia de Guanabara, ainda em 1565. Depois recebeu outra sesmaria no Rio Macacu (1568) e uma terceira no Rio Iguaçu (1568), na Baixada Fluminense. A quarta sesmaria que obteve junto com Julião Rangel de Macedo e era uma dada de terras chamada Tijuca: que ia desde a saída da Lagoa da Tijuca, na barra dela onde ficava a tapera da antiga Aldeia de Guaraguassumirim (que ficava na descida do Joá) até a tapera da aldeia Sapopema (próximo ao bairro atual de Deodoro) e de lá voltava em direção as Vargens e Recreio dos Bandeirantes. Em resumo abrangia toda Baixada de Jacarepaguá: no litoral da Barra da Tijuca até o Recreio e o fundo abrangendo toda a planície e suas lagoas, além das encostas dos Maciços da Pedra Branca e da Tijuca (este limitado com a parte que confrontava com a sesmaria da cidade e a dos Jesuítas). Jerônimo exerceu o cargo de Procurador do Conselho da cidade, em 1576 e morava em Guaxandiba (do outro lado da Baía de Guanabara), em 1616. Pelo visto não conseguiu plantar nada na região de Jacarepaguá, pois a vendeu a Julião Rangel que virou o único dono da região, em 1589.

  • Julião Rangel de Macedo nasceu por volta de 1544, filho de Damião Dias Rangel, era fi dalgo da Casa de El Rei D. Filipe I de Portugal e II da Espanha. Era neto do donatário do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho. Casou-se em 1574 com D. Brites Sardinha, irmã do Bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha (o que naufragou nas costas de Alagoas e foi morto e comido de forma ritualística pelos indígenas Caetés, em 1556), teve com ela 8 filhos. Chegando no Rio de Janeiro, em 1567, participou das guerras de conquista. Exerceu diversos ofícios como escrivão da Câmara do Rio de Janeiro, tesoureiro dos defuntos, escrivão dos órfãos, vereador. Recebeu diversas sesmarias de doação, entre elas na banda d’além da cidade (Niterói), em 1569; no sertão em Guaasu, em 1589; e a da Tijuca, junto com Jerônimo Fernandes em data desconhecida. O fato é que em 1589 já reunia a posse de toda a Baixada de Jacarepaguá, mas não a havia cultivado um palmo de terra!

Julião Rangel era próximo do Governador Salvador de Sá e devia favores a ele não só por ter sido indicado para vários cargos na cidade, apesar de ter sido condenado, em 1567, ao degredo por três anos, no próprio território do Rio de Janeiro, por estar arrolado num processo de assassinato. Vamos saber mais um pouco desse processo.

O primeiro crime passional da cidade

O Rio de Janeiro mal havia sido levantado no Morro do Castelo. Um dos casais que ali morava era Francisco da Costa e sua esposa Jerônima Rodrigues. Ele talvez o primeiro serralheiro da cidade e ela uma das poucas mulheres habitantes na nascente urbe. A sua beleza chamou a atenção de Jorge da Mota, um contador e escrivão recém empossado da almotaçaria da cidade, que se mostrou ao longo da vida um desalmado e assassino. Cobiçando a mulher do serralheiro, articulou um plano para assassiná-lo, o que lhe daria o caminho livre para assedia-la. Como conhecia a vítima convenceu-o a segui-lo a um local deserto às margens do Rio Carioca, onde lhe deu 7 a 8 flechadas, matando-o. Logo após o assassinato foi visto gabando-se de ter matado Francisco da Costa para moradores da cidade e que agora, dizia ele, ficava fácil se relacionar com a viúva do morto. Num primeiro momento 10 pessoas foram implicadas com o crime, entre elas Simão Gonçalves, Julião Rangel e o próprio assassino Jorge da Mota. Destes Simão Gonçalves foi remetido preso para o Espírito Santo, por ter sido acusado de cometer o crime. Tempos depois um sobrinho de Francisco da Costa chamado Gaspar revelou o verdadeiro criminoso e ele foi julgado e condenado, sendo que nesta época já estava também incriminado em outro assassinato, o do Juiz Clemente Peres Ferreira, no ano de 1574. Foi enviado preso para Bahia, onde em vez de ser remetido a Portugal foi engajado pelo Governador-Geral Luís de Brito à força na bandeira de Antônio Dias Adorno, para fazer guerra aos povos indígenas baianos, onde levou muita flechada.

Já Julião Rangel foi absolvido do envolvimento do crime, mas pelo fato de durante o processo judicial ter se ausentado da cidade, foi condenado ao degredo no próprio Rio de Janeiro, que era na época quase o fim do mundo!

O início da colonização de Jacarepaguá Julião apesar de estar com a posse legal de todas as terras da Baixada de Jacarepaguá não a culti vou e assim ele e sua esposa repassaram, em 1589, as terras para os filhos de Salvador Correia de Sá, Governador do Rio, em 1594. O interessante era que Martim de Sá e Gonçalo Correia de Sá eram menores na época que receberam as terras, o que colocava o Governador como real beneficiário da maior sesmaria doada no atual município do Rio de Janeiro.

O fato é que desde de 1589 os dois irmãos através dos seus escravizados ou do seu pai haviam iniciado o desmatamento da região, estavam cultivando cana de açúcar, iniciado a construção de um engenho de cana e montado dois currais de gado naquela vasta região.

Antes disso, em 1585, o próprio Salvador Correa de Sá, enviara a região o indígena Mandú e outros escravizados que ali fizeram roças por três anos, sem que ninguém contestasse o uso daquelas terras pelo governador, o que levanta a suspeita que ele pedira a Julião Rangel para passar as terras para os seus filhos menores.

O indígena Mandú seria, portanto, o primeiro cultivador da Jacarepaguá colonial que conhecemos pelo nome. Ele junto com outros indígenas escravizados, tiveram que derrubar a mata atlântica primitiva cheia: de amoreiras, angelins, aratinguis, aroeiras, araçapocas, bacumixás, batingas brancas, batingas tucano, bicuíbas brancas, bacoparís, bacumixás, biribas, bapevas, buris, bengalas, bacasis, entre outras árvores que não listamos aqui para não cansarmos o leitor com todo o abecedário de árvores nativas do Rio de Janeiro.

O certo também é que naquela época tiveram que enfrentar muitas onças e jacarés que viviam nas lagoas da região, tanto que o nome a região é Jacarepaguá (que em tupi significa “lagoa rasa de jacarés”).

Finalizo aqui deixando um abraço aos batalhadores do Instituto Jacaré, que há 20 anos fazem o monitoramento dos jacarés-de-papo-amarelo existentes no complexo lagunar de Jacarepaguá, trabalhando na proteção e identificação da população remanescentes dos jacarés e com educação ambiental. Hoje eles estão sendo injustamente perseguidos pela Secretaria do Meio Ambiente do Município que os multou por fazer o trabalho de proteção que o município não faz, pois esta deixa não só as lagoas poluídas como não reprimi os caçadores de jacarés!


Para saber mais sobre o assunto deste texto:

  • BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Livraria Brasiliana Editora, 1965.

  • LISBOA, Balthazar da Silva. Anais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Prefeitura do DF/SEC, 1941.

  • RHEINGANTZ Carlos G. Primeiras Famílias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Livraria Brasiliana Editora, 1965.

  • Site: http://insti tutojacare.blogspot.com/

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