• Janis Cassilia

ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO, AQUELE QUE "SIMPLESMENTE APARECEU"

Atualizado: 7 de dez. de 2021

Ele é, com certeza, o paciente mais famoso da Colônia Juliano Moreira. Arthur Bispo do Rosário foi um dos mais expoentes artistas das décadas de 1980 e 1990. De dentro de sua cela ele recriou um mundo em muito perdido pela sua memória e mente fragmentadas. Com o diagnóstico de esquizofrenia-paranóide, mergulhou naquilo que chamamos de instituição total, locais fechados em que grande número de pessoas vive internada em tempo integral, tendo suas vidas regidas por uma equipe de dirigentes que administra a instituição. Locais onde trabalho e lazer se confundem, como prisões, manicômios e conventos. Foi apenas um paciente entre tantos da Colônia, que na época passava pela sua maior crise de superpopulação. Viveu obscurecido naquele panorama e por isso mesmo pode criar um mundo à sua volta.


Arthur Bispo do Rosário foi um sergipano, negro e pobre. Ingressou na marinha em 1925, foi lutador de Boxe, guarda-costas e teve suas primeiras crises alucinatórias em 1938, quando enviado para o Hospício da Praia Vermelha. Sobre suas origens dizia “um dia, eu simplesmente apareci”. Não restam muitas evidências da sua vida anterior à internação, e mesmo depois desta, o que sabemos veio após a sua consagração como artista plástico na Bienal de Arte de Veneza em 1995. Segundo ele “era filho de deus, adotado pela Virgem Maria”. Na arte de Bispo, nomes, lugares, pessoas, acontecimentos, antes e pós a internação aparecem com novas significações.

Na sua primeira exposição individual em 1989 (pouco tempo após a morte de Bispo que se recusava a se afastar de suas obras) no parque Laje, os curadores foram enfáticos afirmar a preciosidade e legitimidade de Bispo como artista do mesmo escalão de artistas franceses e ingleses do cenário da arte contemporânea. Dali, o mundo “se abriu” para Bispo, tendo suas obras expostas em bienais nacionais e internacionais.


Bispo do Rosário passou 50 anos internado em instituições psiquiátricas. Na Colônia Juliano Moreira foi faxina (encarregado da limpeza) e depois xerife (líder do pavilhão Ulisses Viana) se impondo através da força. Numa de suas idas à solitária ouviu uma voz que dizia para recriar o mundo. Se dedicou incansavelmente a tarefa, desfiando os tecidos que encontrava (principalmente as japonas-uniformes dos doentes) para bordar suas obras, utilizando colheres, canecas, pratos e todo tipo de material manuseados na instituição. Dessa forma, Bispo ao uti lizar esses objetos explorava a miséria à sua volta e a ressignificava com as diversas mensagens espirituais e com os nomes e fatos que bordava.

Na época, a Colônia enfrentava a superpopulação com mais de 4 mil pacientes em suas instalações precárias. Na reportagem do Fantástico exibida em 1980, a instituição é mostrada como ambiente caótico em que a desordem imperava. Arthur Bispo do Rosário é apresentado para o público dentro da instituição total, aquela que apaga a individualidade do indivíduo, como um ser único, que explorava a individualidade. Escapou a todas as formas de uniformizar o seu eu (cirurgias, remédios e choques) e de dentro da sua cela, um lugar aparentemente “dentro do controle” da instituição ressignificou seu mundo. Suas obras e sua importância deram espaço à criação de um museu dedicado à arte contemporânea dentro da Colônia, o Museu Bispo do Rosário - Arte Contemporânea que vale a pena ser visitado.

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