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A rede de espionagem de Papai Noel que nem Edward Snowden descobriu

Andando bem longe

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Nessa época de natal, quando éramos crianças ficávamos empolgados com os presentes, principalmente se fossem brinquedos. Fui criança na década de 90 e o desejo de qualquer menino era os bonecos originais dos Cavaleiros de Zodíaco. Eu falava o dia inteiro e o tempo todo disso, tenho muita sorte de minha mãe não ter me abandonado no shopping e fugido, pois deve ter sido um grande tormento me aturar.

Mas a minha perplexidade com o Papai Noel começou com uma advertência da minha mãe , “Seja um bom menino esse ano ou Papai Noel não vai lembrar de você na natal. Vai pegar seu presente e dar pra um menino bem pobrinho.” Alto lá, como assim meu presente vai ser dado a outra pessoa? Talvez seja nesse momento da vida que a classe média brasileira adquire tanta raiva de pobre. Eles vivem lá espreitando, para a qualquer momento tomar tudo que é seu de direito. É trauma de infância, está explicado. Mas para o pequeno Miguel isso não fazia sentido algum. Ora, se Papai Noel tinha que dar o que cada pediu, caso merecesse, e o que garante que o menino pobrinho ia querer o mesmo cavaleiro que eu? Ele ia ganhar uma coisa que não pediu? Mas o pensamento realmente perturbador ainda estava por vir. Como é que o Papai Noel vai saber se sou bom menino?

Hoje, terceiro milênio, século XXI, 2016, sabemos ou deveríamos saber que somos monitorados e não existe informações sigilosa em nossos celulares, computadores e até na conversas que fazemos perto desses aparelhos Smart. Ou alguém esqueceu da advertência da Samsung para evitar falar senhas perto da TV pois ela estava captando conversas. Ou mesmo do Snowden do início da crônica que disse que os agentes da NSA viam as fotos picantes que você mandava por Whatsapp pro seu namorado. Mas amigo, a gente tava nos anos 90, como é que o Papai Noel ia saber se tinha sido um bom menino ou não? Continuei vivendo minha vida de menino numa boa.

Chegou meia noite do tão esperado 25 dezembro, o menino Jesus já tinha nascido e eu já podia abrir o embrulho que estava de baixo da árvore de natal. Uma coisa estranha é que nos filmes o Papai Noel deixa o presente enquanto as crianças dormem, entrando pela chaminé e depois mete o pé. Mas eu super entendia ele ter passado mais cedo na Taquara. Ficava longe de tudo e ainda por cima não tínhamos chaminé. Deve ter deixado um recado com a minha mãe pra abrir o presente só depois da meia noite e foi agilizar sua vida. Abri e tinha uma figura de borracha e mal pintada de um Cavaleiro do Zodíaco, eram os famosos bonecos “falsí”.

Papai Noel havia captado algum deslize meu e decidiu dar meu boneco original para algum menino pobrinho. Não fazia sentido, mas o “bom” velhinho fez mesmo assim. Ele nos bisbilhotava, não havia dúvida. Ele viu quando pedi pro jornaleiro um gibi do Batman, mas estava desviando olhar pra capa da Playboy. Ele via quando dormia sem escovar os dentes e também quando não lavava detrás da orelha no banho. Não sabia como, mas ele via. Poderiam ser câmeras escondidas tipo aquelas usadas pelo Ivo Holanda nas pegadinhas daquele programa do Silvio Santos. Poderia ser aqueles poderes de onipresença, onisciência e oni qualquer coisa. Mas independentemente de como, a certeza era de que estava sendo vigiado o tempo todo. Papai Noel filho da puta. Só pensei, não falei, afinal, falta só 1 ano para o natal do ano que vem e eu queria ganhar um Game Boy, e precisava ser um bom menino.

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