• Jornal Abaixo Assinado

A luta de classes de botequim


Nos bares da vida acontece uma silenciosa luta de classes de botequim

*Miguel Pinho

Quem frequenta os bares do Rio de Janeirosente a diferença no tratamento quando viaja para outras cidades. Aqui estamos acostumados a implorar por um cardápio, esperarmuito pela reposição da cerveja e com as caras fechadas dos garçons. Quando estou outra cidade e recebo de pronto o cardápio e nem preciso pedir nova cerveja para mesa desconfio que esteja em alguma filmagem de pegadinha do finado programa do João Kléber.

O Rio de Janeiro não é qualquer cidade, aqui é a cidade da insubordinação. A gente no comecinho do século XX fez do Centro uma pequena comuna de Paris, cheia de barricadas, porque não queríamos que os médicos vissem nossos traseiros, para aplicar uma vacina vinda sabe-se lá de onde.Isso aqui é o Rio que elegeu o Brizola de baixo das barbas dos milicos em 83. Então insubordinação é com a gente mesmo. E os garçons da cidade maravilhosa não poderiam ser outra coisa.

“Opa, vai demorar ainda a sair o meu pedido?”, “Ô meu patrão, tá saindo já!”, e depois disso você ainda vai esperar mais 45 minutos.  Mas você não entendeu onde está localizado o problema, está bem ali no “meu patrão”. É um dos conflitos mais antigos da humanidade, o antagonismo entre homens livres e escravos, patrícios e plebeus, senhores e servos e patrões e empregados: a boa e velha luta de classes. E agora você deve estar se perguntando: se o problema é entre patrões e empregados, porque ele não quebra pau com o dono do bar em vez de não me atender direito? Amigo, os caminhos da consciência da classe são tortuosos. Por exemplo, os Ludistas eram operários que destruíam máquinas no início do século XIX, na Inglaterra, porque achavam que elas eram a causa de sua penúria e não a exploração patronal. Ao pedir o seu chopinho gelado, o frango a passarinho no capricho ou a ser o último a sair do bar, você é visto pelos garçons como a razão da sua penúria.

Alguns tentam driblar a luta de classes através do caminho da conciliação, ficando íntimos do garçom, chamando pelo nome ou apelido. Isso é inócuo, o desprestígio com os clientes é implacável.

Esse Rio insubordinado de garçons rebeldes não vai mudar com o seu chilique. Não ouse iniciar campanhas de boicote aos 10%, a não ser que queira nunca mais ser servido na vida. Torça para que os garçons tomem consciência de seu papel na história, assim como os operários ingleses, e se voltem contra os seus patrões ou seu frango a passarinho além de não vir no capricho, ainda vai demorar.

*Professor da rede pública

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